TEORIA PSICANALÍTICA

1.      INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho visa fazer uma abordagem em torno dos fundamentos da Teoria Psicanalítica, realçando concretamente os aspectos que determinam a formação da personalidade, bem como os que dinamizam o seu desenvolvimento. Ainda faremos uma abordagem sobre a morte e ainda dos estágios de desenvolvimento. A teoria psicanalítica é o campo de hipóteses sobre o funcionamento e desenvolvimento da mente no homem. Se interessa tanto pelo funcionamento mental normal como pelo patológico, tem uma suposição central de que o comportamento é governado por processos tanto conscientes como inconscientes. Freud demonstrou que o homem não é apenas um ser racional, há impulsos irracionais que o influenciam e estes impulsos irracionais se manifestam através do inconsciente.

 

2.      TEORIA PSICANALÍTICA

 

A teoria psicanalítica é uma denominação genérica para as ideias freudianas a respeito da personalidade, da anormalidade e do tratamento. Tal teoria é apenas uma teoria psicológica, a qual é diferenciada por nunca ter tentado influenciar a psicologia académica. Tinha como objectivo levar ajuda às pessoas em sofrimento.

Na época de Freud, os médicos não entendiam os problemas neurológicos, e muito menos sabiam de possíveis maneiras para tratá-los. Tendo logo descoberto que cuidar dos sintomas físicos da pessoa neurótica era inútil, Freud começou a procurar uma teoria psicológica apropriada.

Podemos afirmar que Freud tratava de seus pacientes tentando trazer à consciência tudo aquilo que estava inconsciente.

Usando como fonte milhares de horas de cuidadosa audição e análise (assim como auto-observação), Freud formulava hipóteses ou intuições a respeito da personalidade. Procurava testar suas ideias à medida que tratava as pessoas. Comparando suas hipóteses com observações posteriores Freud procurava explicar cada fato, não importando quão trivial parecesse. Insistia em que todos os detalhes se ajustam perfeitamente entre si. Procedendo desta maneira, formulou teorias abrangentes sobre a personalidade normal e anormal, teorias essas que continuou a revisar através de toda a sua vida, à medida que as observações clínicas se confirmavam.

Os seguidores de Freud sustentavam as seguintes teses gerais:

 

  • Os psicólogos devem estudar as leis e os determinantes da personalidade (normal e anormal) e elaborar métodos de tratamento para as desordens da personalidade.
  • Os motivos inconscientes, as lembranças, os medos, os conflitos e as frustrações são aspectos muito importantes da personalidade. Trazer esses fenómenos à consciência é uma terapia crucial para as desordens da personalidade.
  • A personalidade é formada durante a primeira infância. A exploração das lembranças dos primeiros cinco anos de vida é essencial ao tratamento.
  • A forma mais apropriada de estudar a personalidade é dentro do contexto de um relacionamento íntimo e prolongado entre o paciente e o terapeuta. Durante o curso dessa associação, os pacientes relatam pensamentos, sentimentos, lembranças, fantasias e sonhos (introspecção informal), enquanto o terapeuta analisa e interpreta o material e observa o comportamento do paciente.

 

A teoria psicanalítica criou uma revolução na concepção e tratamento dos problemas emocionais e gerou interesse entre os psicólogos académicos pela motivação inconsciente, a personalidade, o comportamento anormal e o desenvolvimento infantil. As ideias psicanalistas encontram-se muito vivas actualmente, apesar das grandes modificações que enfrentaram.

Freud pensava que era impossível compreender os processos patológicos se só se admitisse a existência do consciente. A concepção dominante de homem, até então, definia-o como ser racional, que controlava os seus impulsos através da vontade. O consciente, constituído pelas representações presentes na nossa consciência e conhecido pela introspecção, constituía o essencial da vida mental do homem.

HOMEOSTASIA E HEDONISMO

·         Homeostasia

Podemos aperceber-nos da maravilhosa máquina que é o nosso corpo se pensarmos no facto de que o nosso corpo é constituído por triliões de células, que centenas de processos fisiológicos se realizam em cada segundo e que raramente funciona mal. Walter Canon, fisiologista americano do princípio do século XX, referiu a “sabedoria do corpo” e criou a palavra homeostasia para descrever a capacidade de manutenção de condições internas estáveis face às contínuas alterações do meio exterior. Embora a tradução literal do termo possa ser “inalterável”, o termo não designa uma realidade estática ou um estado estático. Pelo contrário, indica um estado dinâmico de equilíbrio, ou de balanço, no qual as condições internas mudam e variam, mas sempre entre amplitudes muita pequenas. Em geral, podemos dizer que o corpo está em homeostasia quando as suas células desempenham adequadamente as suas atividades com regularidade. Mas a manutenção homeostática é muito mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Virtualmente cada sistema de órgãos tem um papel a desempenhar na manutenção constante do meio interno. Para que o sangue seja propagado com força adequada para atingir todos os tecidos do corpo é necessário não só que a corrente sanguínea contenha níveis adequados de nutrientes vitais, mas também que sejam controladas a actividade do coração e a pressão sanguínea. Adicionalmente, não deve ser possível a acumulação de produtos tóxicos, e a temperatura do corpo deve ser controlada a fim de possibilitar as condições específicas para que os fenómenos de metabolismo possam ocorrer. Uma inumerável variedade de factores químicos, térmicos e nervosos actuam e interactuam por complexos meios, muitas vezes apoiando e muitas vezes impedindo a capacidade de o corpo manter a “função orientadora”.A comunicação no interior do corpo é essencial para a homeostasia. Esta comunicação é armazenada pelo sistema nervoso e pelo sistema endócrino que utilizam impulsos eléctricos, conduzidos pelos nervos ou hormonas transportadas pelo sangue, como intermediários. Todos os mecanismos de controlo homeostático têm no mínimo três componentes interdependentes.

O primeiro componente é o centro de controlo, que determina em que ponto e em que medida uma variável deve ser mantida, analisa as informações recebidas e então determina uma resposta apropriada.

O segundo elemento é um receptor. Essencialmente é um tipo de sensor que monitoriza o meio e responde a mudanças denominadas estímulos, pelo envio de informação ao centro de controlo. A corrente de informação do receptor para o centro de controlo ocorre através de uma denominada via aferente.

O terceiro componente é o efetor que fornece os meios para que o centro de controlo possa transmitir a resposta aos estímulos. A corrente de informação parte do centro de controlo para o efetor ao longo de vias eferentes. O resultado da resposta ao estímulo pode moderar, acabar ou paralisar a reacção.

A regulação da temperatura do corpo pelo hipotálamo ilustra um de muitos processos de o sistema nervoso manter constante o meio interno. O controlo dos níveis de glicose no sangue é um bom exemplo do controlo hormonal pelas hormonas pancreáticas.

 

·         Hedonismo

Palavra formada a partir do grego, edonê, que significa prazer. O hedonismo é uma doutrina que defende que o prazer é o meio correcto para atingir o objectivo supremo do homem, a saber, a felicidade, felicidade esta que tem como essência precisamente o prazer. A moral, para o hedonista, deve ser ordenada segundo o modelo que é dado pela busca do prazer, quer dizer, é considerado moral tudo aquilo que dê prazer e imoral tudo o que faça sofrer. Esta doutrina resulta da observação de que todos os seres buscam o prazer e tentam escapar ao sofrimento.
Os primeiros hedonistas de que se tem notícia, organizados em Escola, são os cirenaicos. A Escola Cirenaica foi fundada, segundo alguns, por Aristipo de Cirene (c. 435-365 a.C.), segundo outros pelo seu neto e seu homónimo. A preocupação fundamental desta escola era a da busca do prazer, essencialmente o físico, uma vez que considerava esse superior ao prazer intelectual. Esta era a orientação original desta escola, mas de seguida houve divergências e a orientação é reformulada até um ponto tal em que essas conclusões tardias levaram a contradições com a ambiência inicial: o próprio Aristipo chega a afirmar que o homem deve ser o dominador do prazer e não o contrário.

O epicurismo – movimento fundado por Epicuro (341-271 a.C.) – é já a orientação do hedonismo num outro sentido, menos radical e individualista do que o primeiro. A principal preocupação do epicurismo é a ética, num sentido aproximado da ética cirenaica. O epicurismo considerava também que o objectivo supremo do homem era o prazer, mas entendendo que este se conquistava através da capacidade de superar a dor e que a felicidade não está necessariamente no prazer imediato, pois há prazeres estáticos e outros em fugazes: os primeiros são enganadores e os segundos são os que se deve buscar. A moral utilitarista de Jeremy Bentham é outra forma de hedonismo, considerando que moral é tudo o que seja útil e que é útil tudo o que traga benefícios (prazer, felicidade).

 

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DETERMINISMO PSICOLÓGICO

Freud inicia seu pensamento teórico assumindo que não há nenhuma descontinuidade na vida mental. Ele afirmou que nada ocorre ao acaso e muito menos aos processos mentais. Há uma causa para cada pensamento, para cada memória revivida, sentimento ou acção. Cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos fatos que o precederam. Uma vez que alguns eventos mentais “parecem” ocorrer espontaneamente, Freud começou a procurar e descrever os elos ocultos que ligavam um evento a outro.

Determinismo psíquico é o princípio psicanalítico segundo o qual todos os eventos mentais são precedidos de eventos anteriores que os determinam, é a crença de que a mente funciona como uma máquina em que cada fase se encadeia à anterior e à posterior, com a precisão de um relógio.  

Determinismo psíquico de acordo com Freud, é a razão porque fazemos o que fazemos e pensamos o que pensamos é que somos psiquicamente determinados a fazê-lo. No sistema freudiano, culpo minhas fases iniciais de desenvolvimento psicossexual, eu não sou responsável, porque fui programado para agir e pensar pelas experiências iniciais da vida e sou uma vítima dos resultados das minhas fases psicossexuais, que foram programadas em meu inconsciente.

Instintos e libido

 

Embora Freud não fizesse uma lista de instintos acreditava que todos eles se enquadravam em duas categorias: instintos de vida e de morte.

Os instintos de vida, como sexo, fome e sede ajudam as pessoas a sobreviver e a se reproduzir. Freud dedicou mais atenção ao sexo que a qualquer outro instinto. Os instintos de vida desempenham seu trabalho gerando energia, chamada libido. Esta é semelhante a energia física, mas supre a energia necessária para o pensamento e o comportamento. Se os instintos da vida não forem satisfeitos, a libido pode se acumular e gerar pressão, assim como água bombeada para uma pipa com uma válvula fechada.

Para as pessoas funcionarem normalmente a pressão precisa ser reduzida, do contrário a libido finalmente explode, resultando em comportamento anormal.

Próximo ao fim da vida, Freud descreveu um segundo importante sistema de motivação. Este que era responsável pela morte e destruição (de si mesmo e dos outros), foi chamado instinto de morte ou destrutivo ou thanatos.

Freud supunha que as pessoas têm um desejo inconsciente de morrer, também sugeria que os seres humanos são agressivos porque esse desejo de morte é bloqueado pelos instintos de vida e outras forças dentro da personalidade. Segundo ele, a agressão é autodestruição, voltada para fora, contra um substituto.

O homem diante da própria morte e morte do outro

Desde muito cedo, quando passamos a distinguir nosso próprio corpo do corpo da mãe, somos obrigados a aprender a nos separar de quem ou daquilo que amamos. A princípio, convivemos com separações temporárias, mas chega uma hora, que acontece a nossa primeira perda definitiva: alguém que nos é muito querido, um dia, se vai para sempre. É justamente esse “para sempre” que mais nos incomoda.

Porém, quanto mais conscientes estivermos de nossas mortes diárias, mais nos preparamos para o momento da grande perda de tudo que coleccionamos e nutrimos durante a vida: desde toda a bagagem intelectual, todos os relacionamentos afectivos, até o corpo físico.
Esse quadro actual nos revela a dimensão da cisão que o homem tem feito entre vida e morte, tentando se afastar ao máximo da ideia da morte, considerando sempre que é o outro que vai morrer e não ele. Nos lançamos então à questão da angústia e do medo em relação à morte.

Uma das limitações básicas do homem é a limitação do tempo. Segundo Torres (1983): “…o tempo gera angústia, pois do ponto de vista temporal, o grande limitador chama-se morte…”

Segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983) o ser humano lida com duas concepções em relação à morte: a morte do outro, da qual todos nós temos consciência, embora esteja relacionada ao medo do abandono; e a concepção da própria morte, a consciência da finitude, na qual evitamos pensar pois, para isto, temos que encarar o desconhecido.

É a angústia gerada ao entrar em contacto com a fatalidade da morte, que faz com que o ser humano mobilize-se a vencê-la, accionando para este fim, diversos mecanismos de defesa, expressos através de fantasias inconscientes sobre a morte. Muito comum é a fantasia de existir vida após a morte; de existir um mundo paradisíaco, regado pelo princípio do prazer e onde não existe sofrimento; de existir a possibilidade de volta ao útero materno, uma espécie de parto ao contrário, onde não existem desejos e necessidades. Ao contrário dessas fantasias prazerosas, existem aquelas que provocam temor. O indivíduo pode relacionar a morte com o inferno. São fantasias persecutórias que têm a ver com sentimentos de culpa e remorso. Além disso, existem identificações projectivas com figuras diabólicas, relacionando a morte com um ser aterrorizante, com face de caveira, interligado a pavores de aniquilamento, desintegração e dissolução.

O homem é o único animal que tem consciência de sua própria morte. Segundo Kovács (1998): “O medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independente da idade, sexo, nível socioeconómico e credo religioso.”

Para a Psicanálise Existencial enunciada por Torres, (1983): “… o medo da morte é o medo básico e ao mesmo tempo fonte de todas as nossas realizações: tudo aquilo que fazemos é para transcender a morte.” 

Em sua pesquisa junto a pacientes terminais, Kübler-Ross (1997) identificou cinco estágios quando da tomada de consciência por parte do paciente, de seu estágio terminal. O primeiro estágio é a negação e o isolamento, fase na qual o paciente se defende da ideia da morte, recusando-se a assumi-la como realidade. O segundo estágio é a raiva, momento no qual o paciente coloca toda sua revolta diante da notícia de que seu fim está próximo. Nesta fase, muitas vezes, o paciente chega a ficar agressivo com as pessoas que o rodeiam. O terceiro estágio, a barganha, é um momento no qual o paciente tenta ser bem comportado, na esperança de que isso lhe traga a cura. É como se esse bom comportamento ou qualquer outra atitude filantrópica, trouxesse horas extra de vida. O quarto estágio é a depressão, fase na qual o paciente se recolhe, vivenciando uma enorme sensação de perda. Quando o paciente tem um tempo de elaboração e o acolhimento descrito anteriormente, atingirá o último estágio, que é o da aceitação.

Mas não são somente os pacientes terminais que provocam incómodo por remeter-nos directamente à questão da morte. Os idosos também nos trazem a idéia da morte e não é sem razão que isso acontece. Com o progresso da ciência no combate à mortalidade, a associação entre morte e velhice passou a ser cada vez maior. Segundo Kastembaum e Aisenberg (1983), esse evento relega a morte a um segundo plano, algo que só acontece com o outro (velho).

Para o homem, uma criatura incapaz de aceitar sua própria finitude, não é fácil lidar com um prognóstico de morte. No fundo, o grande medo da morte é o medo do desconhecido.
Freud (1914) nos fala que a morte de um ente querido nos revolta pois, este ser leva consigo uma parte do nosso próprio eu amado. E segue dizendo que, por outro lado, esta morte também nos agrada pois, em cada uma destas pessoas amadas, há também, algo de estranho.
Surge aí, a ambivalência, que são sentimentos simultâneos de amor e ódio, e estão presentes em todos os relacionamentos humanos. Nestes relacionamentos, o desejo de ferir o outro é frequente e a morte desta pessoa pode ser conscientemente desejada. Por isso, muitas vezes, quando o outro morre, a pessoa que assim o desejou pode ficar com um sentimento de culpa difícil de suportar e, para amenizar esta culpa, permanece em um luto intenso e prolongado.
Para a psicanálise, a intensidade da dor frente à uma perda, se configura narcisicamente como a morte de parte de si mesmo.

ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO

Para Freud, a infância era determinante para o desenvolvimento da personalidade, pois considera que o comportamento sexual adulto está relacionado com as vivências infantis.

Depois de ter afirmado que existia uma instância inconsciente no psiquismo humano, Freud vai provocar um grande escândalo ao atribuir à sexualidade um papel essencial na vida psíquica humana. Além do que, afirma a existência de uma sexualidade infantil. A sexualidade exprime-se desde o nascimento, não se inicia apenas com o funcionamento das glândulas sexuais na puberdade.

Com a descoberta da sexualidade infantil, Freud teve de modificar as suas noções, distinguindo sexual de genital. A sexualidade não se limita ao acto sexual entre duas pessoas, é toda a actividade pulsional que tende a uma satisfação.

É compreensível que a psicanálise despertasse admiração e antagonismo, quando contradisse todas as concepções populares sobre sexualidade, e chegou às seguintes conclusões fundamentais:

  • A vida sexual não começa só na puberdade, mas inicia-se com evidentes manifestações após o nascimento.
  • É necessário estabelecer uma nítida diferença entre os conceitos “sexual” e “genital”. O primeiro é um conceito mais amplo e engloba muitas actividades que podem não ter qualquer relação com os órgãos genitais.
  • A vida sexual abrange a função de obter prazer em zonas do corpo, uma função que posteriormente é posta ao serviço da procriação, mas que frequentemente as duas funções não chegam a coincidir na íntegra.

  É natural que o interesse se concentre no primeiro conceito, o mais inesperado de todos. Pode comprovar-se na verdade que desde cedo existem certos sinais de actividade corporal as quais só um forte “prejuízo” pode negar o qualificativo de sexual, e que aparecem associados a fenómenos psíquicos, que mais tarde se manifestam na vida amorosa do adulto, a título de exemplo, a fixação a determinados objectos, os ciúmes, entre outros.

Para Freud, o desenvolvimento humano e a constituição do aparelho psíquico, são explicados pela evolução da psicossexualidade.

Cada estádio é marcado pelo confronto entre as pulsões sexuais (libido) e as forças que se lhe opõem.

A psicanálise foi a primeira corrente de psicologia a atribuir aos primeiros anos de vida uma importância fulcral na estruturação da personalidade.

A teoria de Freud sobre o desenvolvimento é estruturada em cinco estádios:

2.1.1.      Estádio Oral (0 – 12/18 meses)

Este estádio é principalmente caracterizado no primeiro ano de vida. O ser humano nasce com um conjunto de pulsões inatas, o id. O ego forma-se, no primeiro ano de vida, de uma parte do id, que começa a ter características próprias. Estas formam-se pela consciência das percepções internas e externas que o bebé vai experienciando.

A zona erógena do bebé nesta altura, é constituída pelos lábios e pela cavidade bucal. O bebé obtém grande prazer em actividades como sugar, mamar e outras. A alimentação é uma grande fonte de prazer para o bebé. O chupar o seio, é para os freudianos representado como a primeira actividade sexual.

A criança não tem consciência de que o seu corpo se diferencia do da mãe, ela nasce num estado indiferenciado. A relação entre a mãe que alimenta o bebé vai reflectir-se na vida futura.

O estádio oral, é constituído por um período em que a criança é muito passiva e dependente; e outro período, na época do desmame em que a criança está mais activa e pode mesmo morder o seio ou o biberão. O desmame corresponde a uma frustração que vai situar a criança em relação à realidade do mundo.

 Traços Patológicos

A gratificação ou privação oral em excesso podem resultar em fixações libidinais, que contribuem para os traços patológicos. Esses traços podem incluir excessivo optimismo, narcisismo, pessimismo e o hábito de reclamar. Os caracteres orais são, com frequência, excessivamente dependentes e exigem que os demais os sirvam e olhem por eles. Tais pessoas querem ser alimentadas mas podem desistir excepcionalmente a fim de conseguir ser servidos em retribuição. A inveja e o ciúme estão frequentemente associados aos traços orais.

Traços de Carácter

O êxito na resolução da fase oral proporciona uma base na estrutura do carácter para a capacidade de dar e receber sem excessiva dependência ou inveja; uma capacidade de confiar nos outros com um sentimento de segurança e com sentimentos de confiança e segurança próprios.

2.1.2.      Estádio Anal (12/18 meses – 2/3 anos)

Durante os 2/3 anos de idade, a criança começa a controlar as fezes e a urina. A zona erógena, nesta fase, é a região anal e a mucosa intestinal. A estimulação desta parte do corpo dá prazer à criança. Contudo, as contracções musculares podem provocar dor, criando uma ambivalência entre estas duas emoções.

Nesta fase, a criança é mais autónoma, ela procura afirmar-se e realizar as suas vontades. A ambivalência está presente na forma como a criança hesita entre ceder ou opor-se às regras de higiene que a mãe lhe exige. As relações com a mãe e outras pessoas vão estabelecer-se neste contexto.

 Traços Patológicos

Traços de carácter mal adaptados, aparentemente inconsistentes, são derivados do erotismo anal e das defesas contra o mesmo. Regularidade, pertinácia, teimosia, voluntariedade, frugalidade e parcimónia são traços do carácter anal derivados de uma fixação nas funções anais. Quando as defesas contra os traços anais são menos eficazes, o carácter anal revela traços de elevada ambivalência, desordem, desafio, cólera e tendências sadomasoquistas. As características e defesas anais são vistas mais comummente nas neuroses obsessivo-compulsivas.

Traços de Carácter

O êxito na resolução da fase anal proporciona a base para o desenvolvimento de autonomia pessoal, capacidade de independência e iniciativa pessoal, capacidade de auto determinação sem sentimento de vergonha ou falta de confiança, falta de ambivalência e capacidade de cooperação sem excessiva teimosia nem sentimento de depreciação própria ou derrota.

2.1.3.      Estádio Fálico (3 anos – 5/6 anos)

Este estádio pode durar alguns anos. É durante este estádio que a criança descobre as qualidades de agentes de prazer dos órgãos sexuais e se entrega ao jogo da auto-estimulação. A zona erógena é a região genital.

As crianças estão interessadas em questões como: “Como nascem os bebés?”; estão atentas às diferenças anatómicas entre rapazes e raparigas, às relações entre homens e mulheres, pai e mãe, brincam aos médicos e aos pais e às mães.

Os prazeres da criança durante este estádio, são auto-eróticos, isto é, a libido da criança dirige-se para ela mesma. No final do estádio fálico, tem lugar uma mudança importante, a criança começa a dirigir a libido no sentido de amar objectos externos a ela própria. Freud formulou a hipótese de que a libido do menino começa a dirigir-se para a mãe, resultando no chamado complexo de Édipo. Freud deu particular importância a este estádio, precisamente por ser durante este período que as crianças vão vivenciar o complexo de Édipo, e por ser nesta etapa que a estrutura da personalidade está formada com a existência de um superego.

O complexo de Édipo é a atracção que o rapaz tem pela mãe, a quem ele esteve sempre ligado desde que nasceu, e que agora é diferentemente sentida. A sexualidade, que era até esta idade exclusivamente auto-erótica, vai agora ser investida nos pais.

Segundo Freud, os desejos libidinosos do filho para com a mãe, são totalmente inconscientes. Embora eles influenciem o seu comportamento, não é ciente deles. À medida que o seu desejo se sente mais forte, a criança entra inconscientemente em competição com o pai. Isto origina outro complexo – o complexo de castração – em que o rapaz teme que o pai se vingue, mutilando-o, particularmente amputando-lhe os órgãos genitais. Contudo, este temor, ajuda o rapaz a resolver o complexo de Édipo: por causa dele, renuncia aos desejos libidinosos para com a mãe e escapa assim, à ameaça de castração. Ao mesmo tempo, o rapaz identifica-se com o pai, cujos prazeres e realização olha como seus, satisfazendo assim indirectamente os desejos libidinosos relativos à mãe.

O desenvolvimento da personalidade da menina segue as mesmas directrizes. Basta dizer, que também ela apresenta um complexo de Édipo (às vezes chamado complexo de Electra), apresenta uma hostilidade para com a mãe, sendo os seus desejos libidinosos dirigidos para o pai. Porém a resolução deste complexo não chega a um desfecho abrupto mediante um medo repentino e intenso, semelhante ao complexo de castração. Pelo contrário, é resolvido lentamente, e quando o desfecho é feliz, a rapariga identifica-se com a mãe e sublima (torna socialmente aceitáveis) os seus sentimentos com o pai.

Alguns destes complexos passam-se de forma invertida, isto é, a criança investe sensualmente no progenitor do mesmo sexo. Freud considera que a forma como se resolve o complexo edipiano influenciará a vida afectiva futura.

É constituída agora, a terceira instância do aparelho psíquico, o superego. O superego é uma instância com funções morais que é constituída pelos pais imaginários, isto é, os idealizados na infância.

 Traços Patológicos:

A derivação de traços patológicos do envolvimento fálico-edípico é tão complexa e está sujeita a tal variedade de modificações que abrange quase todo o desenvolvimento neurótico. Os problemas, no entanto, centram-se na castração nos homens, e na inveja do pénis, nas mulheres. Outro importante foco de distorções evolutivas nesse período deriva-se dos padrões de identificação desenvolvidos sem a resolução do complexo de Édipo. A influência da ansiedade de castração e a inveja do pénis, as defesas contra ambas, e os padrões de identificação que surgem na fase fálica são os determinantes primários do carácter humano.

 

Traços de Carácter:

O estágio fálico proporciona os fundamentos para a formação de um senso de identidade sexual, de um sentimento de curiosidade sem embaraço, de iniciativa sem culpa, de um sentimento de domínio não apenas sobre pessoas e objectos do ambiente mas sobre os processos internos e os impulsos. A resolução do conflito edípico no final do período fálico desperta poderosos recursos internos para a regulação dos impulsos e sua orientação para fins construtivos. Essa fonte interna de regulação é o superego, que se embaça nas identificações originalmente derivadas das figuras parentais.

2.1.4.      Estádio de Latência (5/6 anos – puberdade)

Após a vivência do complexo de Édipo, e com o superego já formado, a criança entra numa fase de latência. Neste estádio, a libido ou impulso sexual, permanece em estado de repouso. a criança vai esquecer alguns acontecimentos vividos nos primeiros anos de sexualidade, através de um processo designado “amnésia infantil”.

Durante este estádio há uma diminuição da actividade sexual, que pode ser parcial ou total. Nesta fase, a criança pode desenvolver competências e aprender coisas diversas, de uma forma mais calma e com mais disponibilidade interior. Sentimentos como a repugnância, o nojo, o pudor, a vergonha, contribuem para controlar e reter a libido. A existência de um superego vai manifestar-se em preocupações morais.

O ego tem mecanismos inconscientes, que permitem estruturar-se com uma nova organização face às pulsões do id. Existem mecanismos do ego como o recalcamento, a projecção, a sublimação, entre outros.

Traços Patológicos

O perigo no período de latência pode surgir da falta ou excesso de controles internos. A falta de controle pode levar ao fracasso da criança na sublimação de suas energias no interesse da aprendizagem e do desenvolvimento de habilidades. O excesso pode levar ao fechamento prematuro do desenvolvimento da personalidade e à precoce elaboração de traços de caráter obsessivos.

Traços de Carácter

São feitas importantes consolidações e acréscimos à identificação pós-edípica básica. É um período de integração e consolidação de realizações anteriores e do estabelecimento de padrões de funcionamento adaptativo decisivos. A criança pode desenvolver um senso de diligência e capacidade para o domínio de objectos e conceitos que lhe permitam funcionar autonomamente e com senso de iniciativa, sem correr o risco de fracasso ou derrota ou de um sentimento de inferioridade. Essas importantes realizações precisam ser mais integradas como base para uma vida adulta de satisfação no trabalho e no amor.

2.1.5.      Estádio genital (depois da puberdade)

Por esta altura, o aumento da actividade das glândulas genitais acresce os impulsos libidinosos.

Neste estádio retomam-se algumas problemáticas do estado fálico, como o complexo de Édipo. Se este complexo foi resolvido com êxito, o indivíduo transfere a energia libidinosa para uma pessoa fora da família e procede a uma adaptação heterossexual madura. Se, porém, o complexo de Édipo não foi resolvido, surgem perturbações de personalidade.

Alguns adolescentes, face às dificuldades deste período, regridem a fases desenvolvimentais anteriores, recorrendo também a mecanismos de defesa do ego, como o ascetismo e a intelectualização. Através do ascetismo, o adolescente nega o prazer, procura ter um controlo das pulsões, através de uma rigorosa disciplina e isolamento. Pela intelectualização ou racionalização, o jovem procura esconder os aspectos emocionais da adolescência, interessa-se por actividades do pensamento, colocando aí toda a sua energia.

Traços Patológicos

Os desvios patológicos devidos ao fracasso em resolver exitosamente esse estágio do desenvolvimento são múltiplos e complexos. As falhas podem proceder de todo o espectro dos resíduos psicossexuais, já que a tarefa evolutiva do período adolescente se faz num sentido de reabertura, reoperando e reintegrando todos esses aspectos do desenvolvimento. As resoluções anteriores mal sucedidas e as fixações nas várias fases ou aspectos do desenvolvimento psicossexual produzem imperfeições patológicas na personalidade adulta que surge. Um defeito mais específico provindo do fracasso na resolução de problemas da adolescência foi descrito por Erikson como “difusão da personalidade”.

Traços de Carácter

A resolução e a reintegração bem sucedidas de estágios psicossexuais anteriores, na adolescência, a fase genital plena estabelece o estágio normal para uma personalidade totalmente madura com capacidade para uma plena e gratificante potência genital e um senso de identidade auto-integrado e consistente. Tal pessoa alcançou satisfatória capacidade de realização própria e significativa participação nas áreas do trabalho e amor, bem como na aplicação produtiva e criativa de objectivos e valores gratificantes e importantes.

 

ESTRUTURAS DA PERSONALIDADE

Freud distingue dois tópicos na sua teoria. No primeiro, distingue consciente, pré-consciente e inconsciente, a qual ficou conhecida como teoria do iceberg. A mente seria então, constituída por três instâncias:

  • O consciente;
  • O pré-consciente;
  • O inconsciente;

  O consciente seria a parte mais pequena, a qual era constituída por raciocínios, percepções, pensamentos. A seguir, na parte de baixo, estaria o pré-consciente, o qual faz a ligação entre o consciente e o inconsciente, e corresponde na imagem do iceberg, a uma zona flutuante de passagem entre a parte visível e a oculta, e que varia com o grau de imersão ou emersão. O pré-consciente é constituído por lembranças, isto é, aquilo de que nos podemos recordar sem fazer muito esforço. O inconsciente corresponde à parte maior do iceberg. É uma zona do psiquismo constituída por pulsões, tendências e desejos, fundamentalmente de carácter afectivo-sexual, a qual não é passível de conhecimento directo.

A grande revolução introduzida por Freud, consistiu precisamente na afirmação da existência do inconsciente.

O material inconsciente, tende a tornar-se consciente. Porém, há um conjunto de forças que se opõem a essa passagem. Freud compara o nosso psiquismo a uma grande sala – o inconsciente – a qual teria uma pequena antecâmara – o consciente. Na entrada da antecâmara há um vigilante que inspecciona as pulsões, os desejos, que querem passar. Se não lhe agradam, censura-os, impedindo a sua entrada, impossibilitando-os de se tornarem conscientes. Existe uma censura, que bloqueia a tomada de consciência do material inconsciente, que pode ser sujeito a um processo de recalcamento. O recalcamento constitui um dos mecanismos de defesa, inerente ao equilíbrio do indivíduo.

Freud define a personalidade e divide-se em 3 sistemas principais: Id, Ego, Superego.

Do Id faz parte tudo aquilo que é herdado desde o nascimento. É a base da personalidade centrada no indivíduo e exposta às exigências do corpo, do Ego e do superego. Residindo aqui o princípio do prazer, Freud afirmou que todos temos um Inconsciente e uma sexualidade, o que provocou um grande choque na sociedade da época.

O Ego é o consciente, a parte que está em contacto com a realidade externa. Rege-se pelo Princípio da Realidade desenvolvendo-se a partir do Id, conforme a pessoa vai tomando consciência da sua identidade. Tem a função de garantir uma Personalidade saudável. Procura reduzir a tensão e aumentar o prazer para isso tem de regular os impulsos do Id.

O Superego é o pré – consciente e funciona como restrição à actividade consciente, ao Ego. É formado por princípios éticos e morais, tem a capacidade de avaliar as actividades da pessoa, auto-observação e a formação de ideais que estão ligados ao seu próprio desenvolvimento. Os sonhos procuram ludibriar o Superego pelo recalcamento (grande energia sexual que fica censurada e a melhor forma de se exprimir é nos sonhos) e pela condensação (o sonho vai buscar fragmentos de várias pessoas e nem sempre sonhamos com aquela que desejamos).  

A relação entre estes três subsistemas começa no Id – a parte primitiva e instintiva do Ser, onde está a sua energia. Dá então lugar ao Ego, que vai funcionar como um mediador entre Id, Superego e fenómenos externos. Por último, o Superego serve de limite ao Ego.

Estes são, na concepção Freudiana, a estrutura da Personalidade. Esta estrutura tem obstáculos ao seu crescimento, um dos quais a ansiedade. Surge devido a um aumento, previsto ou não, da tensão ou desprazer e um dos problemas da mente é precisamente enfrentar os momentos de ansiedade. São apresentadas duas hipóteses – lidar directamente com a situação ou a negação da mesma. Nesta última solução o Ego protege a Personalidade, deturpando os aspectos que a provocam.  

A estas distorções chamou mecanismos de defesa e contêm a negação, racionalização, formação reactiva, projecção, regressão, sublimação, deslocamento, sendo que o recalcamento é o mais importante dos mecanismos de defesa. Os desejos recalcados podem influenciar a formação da Personalidade e o comportamento da pessoa no futuro.

 

 

3.      CONCLUSÃO

Na análise deste trabalho, referimos a extrema importância dos diversos factores e condicionantes da Personalidade.  Nos percebemos ainda da relação do Homem com o meio circundante e que este influencia o comportamento da pessoa ao longo da sua vida e na formação do seu carácter. Todavia, existe em nós uma preocupação desses factores ao nível da consciência e que predominará na definição da Personalidade no indivíduo, assim como considerado por Freud.

Nos ensina a teoria psicanalítica de Freud, uma vez que temos desejos reprimidos, a todo momento, interferindo em nossa vida consciente e, muitas vezes, provocando desconforto, todas as nossas relações pessoais são permeadas por manifestações de energias psíquicas desconhecidas oriundas de um território obscuro e inatingível. Desse modo, grande parte de nossos desejos e motivos conscientes, que julgamos conhecer e dominar, não passam de imagem daquilo que habita nosso inconsciente.

 

 

 

4.      BIBLIOGRAFIA

 

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Author: O Exame

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