Rousseau (1712 – 1778) & Pestalozzi (1746 – 1827)

INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho tem por objectivo fazer uma abordagem sobre Jean Jaques Rousseau (1712 – 1778), filósofo do século XVIII, e Johann Heinrich Pestalozzi (1746 – 1827). O Rousseau teve enorme influência na educação e pode ser considerado um dos precursores da educação pré-escolar, “descobriu” a infância, fazendo com que se passasse a pensar na criança como ser com ideias próprias, diferentes das do adulto. Suas concepções de educação junto à natureza, de actividade do aluno, de liberdade, são conceitos que perduram até hoje e Pestalozzi propôs modificações nos métodos de ensino, particularmente os usados na escola elementar. Pestalozzi defendia que a educação deveria ocorrer em um ambiente o mais natural possível, sob um clima de disciplina e amor. Também preocupado com a ideia de educação pelos sentidos, Pestalozzi propunha para as crianças actividades de Música, Artes, Geografia, Aritmética e muitas actividades de linguagem oral além do contacto com a natureza.

 

  

CAPÍTULO I

Perfil de Rousseau e seu personagem

 

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, a 28 de Junho de 1712 e faleceu na França em 02 de Julho de 1778, aos 66 anos. Foi filósofo, escritor, teórico político e um compositor musical autodidacta. Teve uma infância conturbada, pois, sua mãe, Suzanne Bernard, morre dias depois de seu nascimento, em decorrência do parto, e seu pai, Isaak Rousseau, um relojoeiro famoso, morreu quando ele tinha 10 anos. Nessa idade, ele “ficou a cargo de uns tios, que confiaram sua educação a um pastor protestante, Lambercier, morador no campo, e que lhe ensinou algum latim e outras matérias” (LUZURIAGA, 2001, p. 163).

Rousseau desde os seis anos aprendeu com seu pai a ler diversos textos (romances que sua mãe escrevia) e livros, dentre eles, os clássicos da Grécia e Roma; Vidas, de Plutarco e

Discursos sobre História Universal, de Bossuet. Com essa infinidade de leituras sentimentais,

Rousseau começou a formar seu carácter sentimental e de temperamento exaltado.

Rousseau foi encaminhado pelo seu tio à aldeia de Bossey e, segundo Eby, essa foi a “única formação que ele estava destinado a receber” (1976, p. 278). Nesse período, em meio a brincadeiras, Rousseau adquiriu um místico amor pela natureza. Na juventude, Rousseau começa a trabalhar para um escrivão, depois com um gravador, mas não se adapta. Foge, perambula, converte-se ao catolicismo, vai residir na casa de um vigário, torna-se cantor e professor de música. Tem várias amantes, viaja bastante, emprega-se como preceptor particular para educar crianças de famílias burguesas. Segundo Eby, depois de 1741, Rousseau que estava pobre, conheceu Thérèse Levasseur, (criada vulgar) que viveu como sua amante durante 23 anos; dessa união, nasceram cinco crianças, todas entregues a “roda dos enjeitados”, e anos mais tarde, a despeito de todos os seus esforços, não conseguiu mais localizar nenhuma delas.

Obra

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)  é conhecido como o primeiro filósofo do Romantismo e por seu Contrato social, em que afirma que o ser humano é inatamente bom e tem seu comportamento corrompido pela sociedade. Produziu também peças, poesia, música e uma das mais notáveis autobiografias da literatura europeia.

Ao fugir de casa aos 16 anos, Rousseau foi para a França, onde ele se tornou protegido de madame de Warens, que o converteu ao catolicismo e se tornou sua amante. Rousseau ganhou a vida como preceptor, músico e escritor, primeiro em Lyon e, após 1742, em Paris. Colaborou com a Enciclopédia de Diderot. Em 1750, seu Discurso sobre as ciências e as artes ganhou o prémio da Academia de Dijon. No subsequente Discurso sobre a origem da desigualdade, desenvolveu suas ideias sobre a influência corruptora da sociedade. Em 1762 publicou Emilio, em que expõe sua teoria educacional, e esboçou sua teoria política em O contrato social. Foi perseguido por essas obras e teve seus livros queimados em sua Genebra natal. Ele entrou em um período conturbado, e em certa altura hospedou-se com David Hume na Inglaterra, mas suas acusações paranóicas a seu anfitrião o levaram de volta a Paris.

Principais ideias

A obra de Rousseau deu margem a uma multiplicidade de interpretações das mais contraditórias; a começar sobre a natureza humana, o referido filósofo reforça a tese da desigualdade entre os homens decorrente da moral ou política, contribuindo para um afastamento entre o estado da natureza e a civilização. O filósofo das Luzes defendia que sociedade tal qual conhecemos adveio de uma serie de acidentes: “O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo, foi o primeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teriam poupado ao género humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendam-se de ouvir esse impostor; estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém.”

Iniciando sua filosofia política em O Contrato Social imaginou os seres humanos num “estado de natureza” para descrever as origens da organização social. Segundo Rousseau, em seu estado original mítico os seres humanos estão em união com a natureza e exibem compaixão natural uns pelos outros. É a sociedade que representa a origem da opressão e da desigualdade, à medida que o desenvolvimento da razão corrompe e sufoca nossos sentimentos naturais de piedade.

Rousseau imagina um modo de organização diferente para a sociedade, acreditando que, à medida que as pessoas começassem a ver os benefícios da cooperação, poderiam abrir mão de bom grado de seus direitos naturais para se submeter à “vontade geral” da sociedade. A vontade geral não é simplesmente um agregado das vontades de cada indivíduo, mas o desejo do bem comum da sociedade como um todo. A liberdade em tal sociedade, para Rousseau, não era uma questão de se ter permissão para fazer o que bem se entende, pois satisfazer os próprios desejos não é liberdade, e sim, uma escravização às paixões. A liberdade genuína envolve viver segundo regras sociais que expressam a vontade geral, da qual cada um é participante activo.

Pedagogia

    Pressupostos básicos: Os pressupostos básicos de Rousseau com respeito à educação eram a crença na bondade natural do homem, e a atribuição à civilização da responsabilidade pela origem do mal. Se o desenvolvimento adequado é estimulado, a bondade natural do indivíduo pode ser protegida da influência corruptora da sociedade.

    Consequentemente, os objectivos da educação, para Rousseau, comportam dois aspectos: o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança e seu afastamento dos males sociais. O mestre deve educar o aluno baseado nas suas motivações naturais. “Logo que nos tornamos conscientes de nossas sensações, estamos inclinados a procurar ou evitar os objectos que as produzem”, diz ele.

    Método: Essencialmente o mestre deve educar o aluno para ser um homem, usando a estrutura provida pelo desenvolvimento natural do aluno, enquanto ao mesmo tempo mantendo em mente o contexto social no qual o aluno eventualmente será um membro. Isto somente pode ser conseguido em um ambiente muito bem controlado.

    As mães deveriam amamentar e fortificar o corpo de suas crianças por meio de testes severos de força física e resistência.

    Seu método de educação era o de retardar o crescimento intelectual: ele demandava a criança demonstrar seus próprios interesses em um assunto e fazer suas próprias perguntas; no estágio da puberdade, no entanto, a sensibilidade do jovem deveria ser educada. O adolescente aceitaria com confiança um contrato livre e recíproco de amizade com seu mestre, que poderia então ajuda-lo a descobrir as alegrias da religião e as dificuldades de lidar com a sociedade.

    O ambiente em que o aluno vive deve ser tal que não haja nenhuma restrição física que não venha do próprio aluno, e depois que desenvolve cognitivamente, até os 15 anos não deveria haver qualquer restrição moral em seu ambiente. O objectivo é que o aluno desenvolva plenamente seu Eu natural. Obviamente, uma tal educação só seria possível se o aluno fosse totalmente isolado da sociedade e não tivesse contacto social, senão com seu mestre.

    O aluno somente entraria na sociedade quando a tendência para a socialização surgisse como uma de suas necessidades naturais. Isto aconteceria na adolescência, após o desenvolvimento da razão. Diz Rousseau “Ele antes tinha apenas sensações, agora ele julga.” Então o aluno experimenta um desejo de companhia e lhe será permitido desenvolver relacionamento pessoal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO II

Perfil de Pestalozzi e seu personagem

 

Johann Heinrich Pestalozzi, nasceu em Zurique, Suíça, em 1746. Faleceu em 1827. Seu pai, era cirurgião, descendente de italianos. Estudou ali mesmo, em Zurique, cursando Filosofia e Linguística no famoso Collegium Carolinum. A influência de Jean-Jacques Rousseau foi enorme.

A vida de Pestalozzi foi um exemplo fantástico de amor e devoção à educação, entre fracassos sucessivos e uma persistência gloriosa em sua missão de educador. Seu pai morreu quando ainda era novo, tendo sido criado pela mãe. Na Universidade de Zurique associa-se ao poeta Lavater num grupo de reformistas.

Casou-se aos 23 anos com Anna Schulthess. Em seguida, comprou um pedaço de terra, transformando a propriedade rural de Neuhof em uma escola. No entanto, tão pobre como os meninos que agasalha, reparte com eles o que mal lhe chegava. Em 1780, esgotados todos os seus recursos, teve que fechar a escola.

Nesta época escreveu “As Horas Nocturnas de um Ermitão” (The Evening Hours of a Hermit – 1780), contendo uma colecção de pensamentos e reflexões.

A este livro seguiu-se sua obra-prima: Leonardo e Gertrudes (“Leonard and Gertrud” – 1781), um conto onde narra a reforma gradual feita primeiro numa casa, depois numa aldeia, frutos dos esforços de uma mulher boa e dedicada.

Os fundamentos psicológicos da educação

 

Pestalozzi influenciou profundamente a educação, ele fez uma grande adaptação na educação pública.  Leu o Emílio, de Rousseau, quando era estudante.    Ficou com o sentimento de que a educação podia elevar os homens e ninguém acreditou mais que Pestalozzi no poder da educação para aperfeiçoar o indivíduo e a sociedade com o seu entusiasmo, influenciou reis e governantes a pensarem na educação do povo.  Em 1782, expressou as usas ideias no seu primeiro livro: Leonardo e Gertrudes; que retrata uma pobre e mesquinha aldeia suíça. Gertrudes, moradora de uma aldeia, actua com os seus filhos e os vizinhos nas artes domésticas, industriais, leitura, escrita, aritmética e outros estudos. Importantes figuras da época leram Leonardo e Gertrudes, mas não o consideraram como um tratado educacional.   Em 1792, Pestalozzi escreve o seu livro mais erudito: Minhas investigações sobre o curso da Natureza no desenvolvimento da raça humana. A obra é recebida sem entusiasmo, Pestalozzi decide ser mestre-escola e parte para um trabalho na sua escola. O lar era para ele a melhor instituição de educação, base para a formação política, moral e religiosa e a instituição educacional deveria se aproximar de uma casa bem organizada.   Na instituição de Pestalozzi, que contava com meninos e jovens, mestres e alunos permaneciam juntos o dia inteiro, dormindo em quartos comuns. O dia escolar era intenso e variado: rezavam, tomavam banho e faziam o desjejum, faziam as primeiras lições, havendo sempre um curto intervalo entre as mesmas. Almoçavam, brincavam e recomeçavam as aulas. Das 8 às 17 horas, as actividades, organizadas, eram desenvolvidas de maneira flexível. Duas tardes por semana eram livres ou os alunos faziam excursões. A organização da escola era simples, sendo que ficavam numa turma os que tinham menos de oito anos; e em outra, a classe inferior, ficavam os meninos de oito a onze anos e na superior, os de onze a dezoito anos.   Pestalozzi condenava a punição, as recompensas e punições. Problemas disciplinares eram discutidos, à noite. Enquanto Pestalozzi introduzia tantas reformas educacionais, a Igreja, que controlava todas as escolas na época, não se preocupava em melhorar o seu padrão de qualidade. A situação que reinava era a seguinte: dava-se à memória um enorme valor, os professores não possuíam habilitação, as classes privilegiadas desprezavam o povo; os prédios escolares eram pouquíssimos.     A prática pedagógica de Pestalozzi sempre valorizou o ideal do educador, isto é, a educação poderia mudar a terrível condição de vida do povo.   A revolução suíça (1799) havia liberado a classe desprotegida e, segundo Pestalozzi, somente a educação poderá contribuir para que o povo conservasse os direitos conquistados. Para Pestalozzi, o desenvolvimento é orgânico, sendo que a criança se desenvolve por leis definidas; os poderes infantis brotam de dentro para fora; os poderes inatos, uma vez despertados, lutam para se desenvolver até a maturidade; a gradação deve ser respeitada; o método deve seguir a natureza; o professor é comparado ao jardineiro que providencia as condições para a planta crescer; a educação sensorial é fundamental e os sentidos devem estar em contacto directo com os objectos; a mente é activa. Frederick Eby resume com clareza os princípios educacionais de Pestalozzi, relacionados a seguir:

1) Pestalozzi tinha uma fé indomável e contagiante na educação com o meio supremo para o aperfeiçoamento individual e social. Seu entusiasmo obrigou reis e governantes a se interessarem pela educação das crianças dos casebres. Democratizou a educação, proclamando ser o direito absoluto de toda criança ter plenamente desenvolvido os poderes que Deus lhe havia dado.

 2) Psicologizou a educação. Quando não havia ciência psicológica digna desse nome, e embora ele próprio tivesse apenas as mais vagas noções sobre a natureza da mente humana, Pestalozzi viu claramente que uma teoria e uma prática correctas de educação deviam ser baseadas numa tal ciência.  

 3) Foi o primeiro a tentar fundamentar a educação no desenvolvimento orgânico mais que a transmissão de ideias.   

 4) Pesquisou as leis fundamentais do desenvolvimento.

  5) A educação começa com a percepção de objectos concretos, o desempenho de acções concretas e experiência de respostas emocionais reais (…).

 6) O desenvolvimento é uma aquisição gradativa de poder. Cada forma de instrução deve progredir de modo lento e gradativo.

7) A religião é mais profunda do que dogmas, ou credos, ou a memorização do catecismo ou das Escrituras. Pestalozzi exigia que os sentimentos religiosos fossem despertados antes que palavras ou símbolos viessem a ser levados à criança.

 8) Vários recursos metodológicos novos devem sua origem a Pestalozzi. Empregava as letras do alfabeto presas a cartões e introduziu lousas e lápis. A inovação mais importante foi a da instrução simultânea, ou em classe. Isso não era novo, mas não havia sido posto em prática de um modo generalizado.

 9) Pestalozzi revolucionou a disciplina, baseando-a na boa vontade recíproca e na cooperação entre aluno e professor.  

10) Deu novo impulso à formação de professores e ao estudo da educação como uma ciência”.

 

 

O MÉTODO INTUITIVO

A criança será levada a perceber intuitivamente, ou seja, pela sua própria cabeça, o fenómeno que a actividade lhe apresenta. O educador não vai apresentar definições à criança, mas levá-la a perceber, compreender e sentir o real significado do conteúdo em estudo. O método intuitivo leva a criança, através da percepção, a chegar à conclusão lógica através da observação, comparação e análise, onde ela vai perceber e sentir a realidade em seu íntimo. A percepção, para Pestalozzi, tem um sentido global e não se restringe apenas à percepção sensorial. Além dos sentidos, ela atinge o intelecto e o sentimento.

A razão, o sentimento e os sentidos devem ser estimulados simultaneamente. Todas as capacidades interiores se interagem organicamente e precisam ser estimuladas simultaneamente para ocorrer o desenvolvimento integral e harmonioso do ser. Por exemplo, na actividade em que iniciamos o tema Deus, levamos a criança a um contacto directo com a obra Divina, a natureza. Visitamos uma chácara, onde a criança pode caminhar descalça na grama, olhar os pássaros e os animais, sentar debaixo das árvores, comer os frutos, sentir o perfume das flores e explorar os recantos maravilhosos que a natureza sempre oferece. O educador apenas orienta discretamente, deixando a criança vivenciar cada momento.

Pelos sentidos, ela entra em contacto directo com a obra Divina, olhando, tocando, cheirando, ouvindo e saboreando. Pelo intelecto, ela analisa e compara: Deus criou tudo isso… os minerais, as plantas e todos os seres vivos. Somente Deus cria a vida. Ao mesmo tempo, ela vai sentir o ambiente, perceber o amor de Deus para com suas criaturas, vibrar na mesma sintonia.

Embora tendo utilizado poucas explicações teóricas, apenas as indispensáveis para o momento, a actividade interior da criança foi intensa. A percepção em seu sentido global, ou seja, sensorial, intelectual e afectiva foi accionada e a criança pode perceber, senti e concluir.

O método intuitivo está intimamente ligado ao desenvolvimento do pensamento intuitivo (vide item 30) e trabalha, ao mesmo tempo com o subconsciente, com a bagagem que o Espírito traz de suas vivências passadas e, com o super consciente, com a inspiração superior que flui do mais alto e abre caminhos em sua própria razão, ampliando de maneira fantástica sua compreensão da vida, do mundo em que vive e de si mesmo.

Trabalhando ao mesmo tempo com o sentimento, com a inteligência e com os sentidos, estimula o desenvolvimento integral do Espírito, como ser que pensa, sente e age. O método é construtivista em sua essência, mas vai muito além da definição de “construtivismo” pela educação contemporânea, pois atinge também o seu sentido espiritual.

Saber, sentir e querer formam a síntese evolutiva da educação do futuro, a educação que a Doutrina Espírita nos apresenta, e que Pestalozzi já antevia em sua visão de Espírito superior e nobre. Embora pouco compreendido até hoje, Pestalozzi é o precursor legítimo da Educação do Espírito.

O DESENVOLVIMENTO MORAL SEGUNDO PESTALOZZI

No que se refere ao desenvolvimento moral as ideias de Pestalozzi são semelhantes às de Piaget. Mas vai além, ao identificar o germe de toda a potencialidade e ao entrar no campo fantástico do sentimento e da vibração. Para Pestalozzi, a moral é o fim supremo da educação, pois o homem é um ser essencialmente moral, pois possui dentro de si mesmo a essência Divina.

Pestalozzi define três estados ou etapas do desenvolvimento moral do homem:

Estado natural ou primitivo

 Corresponde à natureza animal, aos impulsos instintivos de sobrevivência e dominação, procurando satisfazer suas necessidades básicas. O homem é egoísta por natureza. Corresponde ao estado primitivo do homem.

Estado social

 Corresponde à moral social, à lei social, ao que se aprende na sociedade. Por necessidade criou-se a sociedade, o governo, as leis, para coibir a manifestação dessa animalidade e garantir ao homem (ainda na animalidade) a satisfação de seus próprios prazeres. Apenas coíbe, impede a manifestação – não transforma os instintos básicos do homem.

 

Estado moral

Ao atingir o estado moral o homem é capaz de trabalhar seus instintos animais, transformá-los, canalizar essa força num sentido positivo e é capaz de construir sua própria moral. A moral não vem de fora – é interior. O homem não é apenas um ser animal, ou um ser social. Antes, acima e além de tudo ele é um ser espiritual, é um ser moral por excelência, pois traz a essência Divina em si mesmo.

Facilmente identificamos os estados citados por Pestalozzi com as fases morais de Piaget. No entanto, Pestalozzi exalta o amor, que é a base sobre a qual assenta toda a sua pedagogia, entrando no campo deslumbrante do sentimento. Afirma que, através da vibração, do impulso de alguém que se descobriu como ser Divino, que é um ser moral, que já trabalhou ou trabalha suas camadas íntimas, seus instintos elevando-os ao nível do amor, esse é capaz de despertar no educando o amor que ele já possui em si mesmo. O educador contagia, desperta essa essência que se encontra em estado latente.

O papel do educador é despertar essa essência Divina no educando para que ele, uma vez consciente de si mesmo, possa se modificar, trabalhar consigo mesmo e não ser governado ou dirigido por igrejas, instituições ou pelo estado. O educador acende a centelha ou desencadeia um processo através do qual o educando vai atingir a sua autonomia moral, o estado moral, despertando a consciência moral, a essência Divina que existe em si mesmo, como filho de Deus.

O homem que atingiu o estado moral não é aquele que se adaptou a uma sociedade, mas é aquele que constrói sociedades dignas que sintonizam com as Leis Divinas, com o Criador.

Os pensamentos de Rousseau e Pestalozzi

Ao analisar a importância as ideias pedagógicas do filósofo genebrino Rousseau (1712-1778) e do pedagogo zuriquense Pestalozzi (1746-1827), constatamos que a Suíça nos brindou com expoentes na arte de ensinar, unindo a teoria e a prática.

Oliveira (2009:29) permite com que façamos uma reflexão acerca do posicionamento, não apenas dos pensadores suíços, mas também de como a Pedagogia, o processo de ensino e aprendizagem, a escola ou os papéis de aluno e professor são modelados de acordo com as matrizes instituídas por estudiosos do ramo. No caso específico de Rousseau e Pestalozzi, é possível perceber a consideração que fazem a respeito do ensino coligado aos anseios e necessidades do aprendiz.

As visões de mundo concebidas pelos pensadores são de natureza parecida, pois ambos viveram momentos histórico-culturais intensos, tangidos por mudanças de ordem econômica e social que, obviamente, influenciaram em seus pensamentos, tal como o movimento iluminista, que inspira Pestalozzi em alguns pontos e é contestado por Rousseau em outros.

Algo que, sem dúvida, contribui para que possamos ter o total entendimento sobre tais pensamentos e tenhamos a possibilidade de estabelecer diálogo com seus autores é o texto claro e conciso que Oliveira nos apresenta. De modo didático, a autora tece a respeito da vida, da obra, das ideias de Rousseau e, em seguida, promove a mesma sequência ao nos apresentar Pestalozzi. Aqui, seguirei a mesma métrica, afim de apontar as principais corroborações trazidas pelo texto às contribuições dos pensadores suíços.

De acordo com Oliveira, (2009:35), Rousseau fundamenta suas concepções sob a “premissa de que o ser humano é bom por natureza, sendo corrompido pela sociedade: é a ideia do homem natural”. O filósofo também nos apresenta a ideia de uma “educação natural na qual as ações do homem não ocorressem pela prescrição de regras exteriores e artificiais, mas sim pelos seus interesses naturais. Somente assim o homem poderia ser o dono de si” (OLIVEIRA, p. 36). Sob esta ótica, o intelecto não poderia ser o centro da educação, pois o homem é também constituído por sentimentos, emoções, instintos e sentidos. Assim, defendia a liberdade do “homem natural”, que se aperfeiçoaria por meio da educação.

A autora ainda acrescenta que o pensador assinalava que a criança está em processo, pois engloba o sentimento e a afetividade e, sendo assim, ela deve ser educada e cuidada desde a mais tenra idade, proporcionando ao homem a felicidade desde criança. “Ele objetivava a educação da criança baseada na liberdade e na plenitude dos sentidos, implicando em uma dependência das coisas e não da vontade dos adultos, criticando a educação elitista”. (OLIVEIRA, 2009, p. 35).

A função principal da filosofia de Rousseau é libertar o homem, e, talvez por isso, ele via como necessária a busca pela retomada da liberdade, sendo que, para tanto, o indivíduo deveria ser orientado ao autoconhecimento. Adepto de uma educação natural, o pensador e suas ideias relacionavam-se a uma percepção otimista do homem e da natureza. Criticava, assim, um ensino baseado na repetição e memorização dos conteúdos.

É importante destacarmos que Rousseau sugeriu um ensino no qual o aluno deve conduzir seu aprendizado por interesse próprio. Segundo ele, a educação também deveria enfatizar a formação moral e política do aluno, e, portanto, o seu objetivo era ensinar a criança a vivenciar e a aprender a praticar a liberdade. (OLIVEIRA, 2009, p. 36).

A criança passa a ser considerada inocente e boa por natureza está no centro da ação educativa que deve guiar-se pelos seus interesses e características próprias. O filósofo acreditava que o docente tinha o papel de iniciar um processo de humanização e também deveria ser um modelo a ser seguido, acreditando que o aluno aprende em contato com o professor. (OLIVEIRA, p. 37).

Libâneo, apud. Oliveira (2009, p 37), destaca pensamentos do pensador zuriquense, como o de que “a preparação da criança para a vida futura deve basear-se no estudo das coisas que correspondem às suas necessidades e interesses atuais”, o de que “os verdadeiros professores são a natureza, a experiência e o sentimento” e, também, que “a educação é um processo natural” fundamentado “no desenvolvimento interno do aluno”.

A seguir, conheceremos as concepções de Pestalozzi, pedagogo continuador do filósofo, que pôs em prática as ideias de seu compatriota, objetivando, segundo Oliveira (2009, p. 28), o desenvolvimento harmônico do aluno. Um dos pontos de convergência entre ambos é a posição contrária ao sadismo pedagógico e a crueldade contra as crianças, atos até então considerados “naturais”.

A autora, que tão bem conduz a tessitura, afim de contribuir para a construção da aprendizagem, uma marca clara do didatismo empregado em sua escrita, vem nos dizer que o pedagogo zuriquense tem, compreende a educação e a explora com a finalidade de desenvolver progressivamente todas as faculdades para que o educando atinja o estado moral, promovendo assim todo o desenvolvimento possível do ser humano. (Oliveira, 2009, p. 39).

Para tanto, observa-se que o pensador segue e amplia os tracejados de Rousseau, propondo uma inversão nos papéis de aluno e professor, assinalando que o ponto de partida para o ensino fosse o interesse e a curiosidade do aluno.

Pestalozzi diz que “a árvore inicia sua existência pela semente e pela raiz, formando um todo conexo de elementos orgânicos”. Isso seria o mesmo que dizer, por meio de uma analogia que “o desenvolvimento do ser humano é gradativo”. Desse modo, “o professor corresponderia ao jardineiro que fornece as condições necessárias para o crescimento das plantas e, assim, possui a função de impedir que obstáculos e dificuldades prejudiquem o desenvolvimento natural do ser humano”. (OLIVEIRA, 2009, p. 39).

O pedagogo contribuiu para a ampliação dos pensamentos do filósofo, principalmente no tocante a aprendizagem, por exultá-la em seu aspecto prático e baseado na experiência sensorial. “O pensamento pestalozziano afirma que a criança deveria discriminar, analisar e abstrair as qualidades dos objetos, e depois se expressar em palavras, permitindo a atividade mental, base do método intuitivo, também conhecido como “lição das coisas”, bastante difundido a partir de então”. (Idem).

Pestalozzi fundou o Internato de Yverdon, no ano de 1805, no qual a estrutura curricular era formada de tal modo que enfatizava as atividades dos alunos, sendo que partia de conteúdos simples para os complexos, assim como do concreto para o abstrato, daquilo que é particular para o geral, do conhecido para chegar ao desconhecido. Nesse contexto, as atividades primordialmente desenvolvidas no internato eram: educação física, canto, escrita, modelagem, excursões ao ar livre e cartografia. (Oliveira, 2009, p. 40).

De acordo com Zanatta, apud. Oliveira (2009, p. 41), com base nas idéias postuladas por esse pedagogo, as escolas da Prússia foram reorganizadas, os métodos pestalozzianos adotados e as escolas normais fundadas para formar novos professores.

Portanto, sabemos que Pestalozzi “não só elaborou seu pensamento pedagógico como testou suas teorias e ideias nas escolas que fundou, e influenciou sistemas de ensino e a formação de professores, expandindo, portanto, todo o legado de Rousseau no tocante à educação.

Ainda de acordo com Oliveira (2009, p. 43) “as novas ideias sempre surgem de reelaborações de ideias anteriores”, por isso é importante que compreendamos as acepções trazidas pelos pensadores suíços, que tanto contribuíram para resoluções de desafios à sua época e que, ainda hoje, trazem resultados para a educação.

 

 

CONCLUSÃO

 

Rousseau foi o filósofo da contradição, pois seus textos muitas vezes são antagónicos. Quando ele mostra a dupla natureza das finalidades educativas (internas e próprias para cada idade) está, na verdade, apontando os novos rumos para a escolaridade, rumos estes que foram trilhados pelos seus seguidores, como Pestalozzi.

Com Rousseau, percebemos o nascimento do conceito de infância, conceito este que norteou a pedagogia durante muito tempo. Actualmente a informatização coloca maior parte das crianças diante do computador, televisão ou em jogos de vídeo games, assim, a fase de maior espontaneidade, de liberdade que vai dos zero aos oito ou nove anos fica prejudicada. Sua inocência infantil foi posta de lado pela indústria do entretenimento.

Rousseau assim como Pestalozzi formularam princípios, teorias e ideias que marcaram fortemente o campo da educação, particularmente a didáctica. A análise de suas formulações teóricas contribui para ampliar a compreensão acerca do desenvolvimento histórico das teorias da educação e das práticas educativas escolares, permitindo uma reflexão sobre conceitos centrais dessas teorias.

 

 

 BIBLIOGRAFIA

  1. CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009;
  2. EBY, Frederick. História da Educação Moderna: teoria, organização e práticas educacionais. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1976;
  3. http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau (extraído no dia 13 de Abril de 2013, 14:38);
  4. http://www.culturabrasil.pro.br/rousseau.htm (extraído no dia 13 de abril de 2013, 15:35);
  5. LUZURIAGA, Lorenzo. História da Educação e da pedagogia. 19. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001;
  6. OLIVEIRA, Rosa Maria Moraes Anunciato de. Ensino e aprendizagem escolar : algumas origens das ideias educacionais. EdUFSCar, São Carlos, 2009.

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Author: O Exame

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