REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

O termo “representação” está presente em diferentes contextos. Nas investigações filosóficas ele aparece desde a antiguidade grega, com os mais variados sentidos. A expressão “representação social”, no entanto, tem uma história bem mais recente. Na sociologia, surgiu com Durkheim por volta de 1897. Na psicologia social, o interesse pelo fenómeno descrito por Durkheim como representação colectiva surgiu com a investigação de Serge Moscovici (196l), intitulada a Representação Social da Psicanálise.

            Moscovici desejava responder à questão: em que se transforma uma disciplina científica quando passa do domínio dos especialistas para o grande público? Seu trabalho teve grande importância extrapolando a resposta obtida e marcando uma mudança fundamental nas análises teóricas dos determinantes do comportamento social.

            O conceito de representação social segundo Moscovici não é fácil de ser compreendido. Uma das razões dessa dificuldade é sem dúvida o fato de ser a representação um conceito híbrido de onde confluem noções de origem sociológica, como a cultura e a ideologia e noções de procedência psicológica, tais como a imagem e pensamento. O conceito de representação social é peculiar e pode ser chamado de um conceito eminentemente psicossociológico.

            Assim, para JODELET citada por GRACIA (1988, p. 33) representação social é:

 

Uma maneira que nós sujeitos sociais aprendemos os conhecimentos da vida diária, as características de nosso meio ambiente, as informações que nele circulam, as pessoas de nosso relacionamento. Em outras palavras, o conhecimento espontâneo, ingénuo, denominado de conhecimento do senso comum, ou pensamento natural, por oposição ao pensamento científico. Este conhecimento se constitui a partir de nossas experiências, de nossas informações, conhecimentos e modelos de pensamento que recebemos e transmitimos através da tradição, da educação e da comunicação social. Desse modo o conhecimento é , em muitos aspectos, um conhecimento socialmente elaborado e compartilhado… (1988, p. 33)

 

Já MOSCOVICI enfatiza o carácter específico, a dimensão irredutível das representações sociais. Para ele, as representações sociais constituem uma organização psicológica, uma forma de conhecimento específico de nossa sociedade e que não se reduz a nenhuma outra forma de conhecimento (1978, p. 46). Com isto, ele pretende marcar a diferença entre as representações sociais e outras formas de pensamento social como os mitos, a ideologia, a ciência ou simplesmente as visões de mundo. No entanto, as representações sociais compartilham aspectos comuns com cada uma delas. Por exemplo, as representações sociais actuam na realidade social, da mesma forma que actuam as teorias científicas com respeito aos objectos que se aplicam. Porém, é lógico que as teorias do senso comum que são as representações sociais não tenham o mesmo modo de produção, a mesma lógica interna, nem a forma discursiva das teorias do pensamento científico.

            GRACIA (1988) vê a representação social como um processo de construção da realidade e esta afirmação, diz ele, deve ser entendida em duplo sentido. Primeiro, no sentido de que as representações sociais são parte da realidade social, contribuem pois para configurá-la e, como parte substancial da realidade, produzem nela uma série de efeitos específicos. Segundo, no sentido de que as representações sociais contribuem para construir o objecto do qual são uma representação.

            O conceito de representação social tem diversas conotações, como já mencionamos acima. Neste trabalho, no entanto, utilizaremos aquele proposto por Serge MOSCOVICI em seu trabalho sobre a Representação Social da Psicanálise.

            As representações sociais são formadas, na sua grande maioria, da cultura acumulada na sociedade ao longo da história. O fundo cultural circula pela sociedade através das crenças compartilhadas, dos valores, das referências históricas e culturais que formam a memória colectiva e constroem a identidade da própria sociedade. As fontes de determinação das representações sociais, de maneira geral, se encontram no conjunto de condições sociais, económicas e históricas, as quais caracterizam uma determinada sociedade, bem como no sistema de crenças e valores existentes na referida sociedade.

            GRACIA (1988, p. 41) acredita que outras fontes mais específicas provêm da própria dinâmica das representações sociais e de seus mecanismos internos de formação. Ele coloca entre estes mecanismos a objectivação e a ancoragem. Finalmente, diz Gracia que as representações sociais se formam a partir do conjunto de práticas sociais que se encontram relacionadas com as diversas modalidades da comunicação social. É, sem dúvida, afirma ele, nos processos de comunicação onde se originam as representações sociais.                   

            As representações sociais são compostas de inúmeros elementos de natureza e procedência diversas. No entanto, segundo Moscovici existem três eixos em torno dos quais se estruturam os componentes de uma representação social: a atitude, a informação e a imagem ou campo de representação.

 

            A  Atitude é a tendência favorável ou não que determinada pessoa tem sobre um objecto da representação e  é expressa portanto, em forma de avaliação. Os diversos componentes afectivos que fazem parte de qualquer representação se articulam sobre essa dimensão avaliativa, imprimindo às representações um carácter dinâmico. E, assim, como componente atitudinal das representações sociais, dinamiza e orienta decisivamente as condutas acerca do objecto representado, suscitando um conjunto de reacções emocionais, influenciando as pessoas com maior ou menor intensidade.

 

            A Informação  – informação é o “ato ou efeito  de informar(se). Informe. Dados sobre alguém ou algo. Instrução, direcção.”  (FERREIRA , 1975, p. 267)

            Esta definição de informação mais ligada à comunicação, no sentido de que informar é dar conhecimento sobre algo ou tornar comum esse algo, é importante para a psicologia social, pois a noção de comunicação direcciona o comportamento linguístico e a situação psicossocial referente aos estudos de comportamento.

            A comunicação é, portanto, vital no sistema de troca de informações, embora seja evidente que os níveis de informação a respeito de determinado objecto ou saber mais elaborado nem sempre são coerentes e variam conforme o grupo ou universo de opinião.

            As colocações de KAES (1968) contribuem para confirmar o que foi dito acima, quando ele afirma: ” a informação concerne na organização  dos conhecimentos que possui um indivíduo ou grupo a respeito de um objecto”. É possível, afirma o autor, distinguir os níveis de conhecimento, seja pela quantidade ou qualidade da informação relativa ao objecto dessa informação. Estes são, no entanto, caracteres particulares mais ou menos estereotipados e pré-julgados.

            Nas palavras de KAES (1968, p. 17), a representação, produto da actividade do sujeito, se constitui como base das informações que recebe e que elabora a partir da percepção de mundo dos outros e de si mesmo.

            A função da percepção é, segundo KAES (1968, p. 20), a selecção das informações úteis ao sujeito para que este possa ajustar-se ou adaptar-se à realidade. Ela opera de acordo com o sistema de valores do grupo ao qual pertencem os indivíduos, sendo sua função social permitir que estes se adaptem ao meio para viver em sociedade.

 

            A Imagem ou Campo de Representação O campo  de representação se organiza em torno do esquema figurativo, ou núcleo figurativo. Este esquema ou núcleo não só constitui a parte mais sólida e mais estável da representação, mas exerce uma função organizadora para o conjunto da representação. É quem confere o peso e o significado aos demais  elementos que estão presentes no campo de representação. O núcleo figurativo se constrói  através do processo de objectivação e provém da transformação dos diversos conteúdos conceituais relacionados com o objecto, em imagens. Estas imagens contribuem para que as pessoas formem uma visão  menos abstracta do objecto representado, substituindo suas dimensões mais complexas por elementos figurativos que são mais acessíveis ao pensamento concreto.

            As imagens são um conjunto preponderante das elaborações de conduta e dos modelos de conduta. São produtos para a tentativa de assumir a realidade concreta da sua definição abstracta – podendo ser puramente mentais ou materiais, são intermediárias entre o objecto e o sujeito, o concreto e o abstracto, o passado e o futuro, o indivíduo e o grupo (KAES,1968, p. 22-23).

            “As imagens são espécies de sensações mentais, de impressões que os objectos e as pessoas deixam em nosso cérebro. Ao mesmo tempo, elas mantêm vivos os traços do passado, ocupam os espaços de nossa memória para protegê-los contra a barafunda da mudança e reforçam o sentimento de continuidade do meio ambiente e das experiências individuais e colectivas” (MOSCOVICI,  l978, p. 47).

            Como conclusão sobre as dimensões da representação, MOSCOVICI (1978, p. 74) observou que a psicanálise suscita atitudes em todos os grupos, mas nem todos apresentam, sobre ela, representações sociais coerentes. Afirma que uma dimensão pode ser mais estruturada e as outras mais difusas. A atitude é a mais frequente das três dimensões. Segundo ele, uma pessoa se informa e representa um objecto, depois de ter uma posição (atitude) em relação a ele.

            Cada realidade social é, pois, dotada de uma inteligibilidade própria, permeando normas, interesses colectivos, valores, princípios morais à vida colectiva dos indivíduos. Investigar uma realidade social pressupõe contar com um conjunto coordenado de representações, uma estrutura de sentidos, de significados que circulam entre os seus membros, mediante diferentes formas de linguagem.

 

 

Referências bibliográficas

  • DURKHEIM, E.  Sociologia e educação.  São Paulo :  Ed. Melhoramentos, 1955.
  • GRACIA, T. I.  Ideologías de la vida cotidiana. Barcelona : Sendai, 1988.
  • FERREIRA, A. B. de H.  Novo dicionário da língua portuguesa.  1.ed.  Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1975.
  • KAES,  R.  Images de la culture chez les ouvriers français.   Paris : Cujas, 1968.
  • MOSCOVICI, S.  A representação social da psicanálise.  Rio de Janeiro : Zahar, 1978.

 

 

 

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Author: O Exame

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