Perspectiva etológica do Desenvolvimento

CAPÍTULO I

1.      Etologia

Contextualização

A disciplina dedicada ao estudo do comportamento animal recebe o nome de Etologia, termo que provêm do grego êthos (conduta, costumes, comportamento) e lógos (estudo, tratado).

Por volta das décadas de 30 e 40, um grupo de cientistas, que se auto denominavam etólogos, como Niki Tinbergen, Konrad Lorenz e Karl von Frisch, estudaram os padrões de comportamento específicos das espécies, fazendo preferencialmente no ambiente natural as suas observações.

A consagração e reconhecimento científico vieram para a Etologia na forma de um prêmio Nobel entregue em 1973 a Tinbergen, Lorenz e também ao alemão Karl von Frisch, que desvendou a linguagem das abelhas.

A partir desse pressuposto, os etólogos se deparam com quatro questões fundamentais em relação ao comportamento proposto por Tinbergen em 1963. Segundo ele em primeiro lugar deve se observar e descrever o comportamento, posteriormente, uma análise completa do comportamento deve ser feita com base nas análises:

a)      Análise causal: é feita através do estabelecimento de uma relação entre um determinado comportamento com uma condição antecedente, sendo estudado os estímulos externos responsáveis pelo comportamento e os mecanismos motivacionais internos.

b)      Análise ontogenética: envolve uma relação do comportamento com o tempo, estando o interesse voltado para o processo de diferenciação e de integração dos padrões comportamentais no curso do desenvolvimento de um individuo jovem.

c)      Análise filogenética: estuda a história do comportamento no curso da evolução da espécie.

d)     Análise funcional: estabelece uma relação entre determinado comportamento e mudanças que ocorrem no ambiente circundante ou dentro do próprio indivíduo.

Esses questionamentos nortearam o trabalho dos etólogos. Além da contribuição teórica, a Etologia também propiciou grandes avanços no estudo do comportamento metodológico. A abordagem etológica pode fornecer o repertório de conceitos e dados necessários para explorar e integrar dados e Insights proporcionados por outras abordagens, como a psicanálise e a teoria da aprendizagem de Piaget. Enquanto uma contribuição teórico conceitual a etologia utiliza modelos e conceitos teóricos para a interpretação de seus fenómenos.

2.      Perspectiva etológica

A perspectiva etológica concentra – se nas bases biológicas e evolucionistas do comportamento. “Ela vai além do valor adaptativo imediato que um comportamento tem para o indivíduo a fim de examinar sua função na promoção da sobrevivência do grupo ou da espécie”. (PAPALIA, 2006, p.78).

Os etologistas fazem pesquisas comparativas para identificar quais comportamentos são universais e quais são específicos a uma determinada espécie ou são modificados pela cultura, também identificam comportamentos que são adaptativos em diferentes períodos do tempo de vida.

Actualmente, a abordagem etológica tem sido aplicada principalmente a algumas questões de desenvolvimento específicos como apego, dominância e agressividade entre amigos e habilidades de resolução de problemas do dia-a-dia.

Na perspectiva etológica, padrões de brincadeira e de parceria social são características típicas de cada espécie, conferindo ao fenómeno regularidade e certa universalidade, embora em interacção com as condições ambientais presentes.

Na visão de Lorenz explicar nosso comportamento por causas naturais não exclui ou afecta necessariamente a nossa “dignidade” ou nossa escala de valores, que os behavioristas consideram falsos, nem mostra tampouco que não somos livres. Ao contrário, para Lorenz o nosso crescente conhecimento de nós mesmos aumenta o nosso poder de autocontrolo e assenta em bases sólidas nossa vontade. Quanto mais compreendermos as causas materiais de nossa agressão, mais aptos estaremos para tomar medidas racionais para controlá-la. “O autoconhecimento é o primeiro passo para a salvação”. (COBRA, 2003).

Na hierarquia informacional, um instinto é diferente de um reflexo, que é uma simples resposta dada instantaneamente pelo organismo a algum estímulo, sem o envolvimento de um centro cerebral. Os instintos tornam-se mais complexos á medida que o sistema nervoso de uma espécie se aprimora.

As contribuições da perspectiva etológica à Psicologia do Desenvolvimento podem ser resumidas sobretudo em dois aspectos, um de natureza conceptual e outro de cunho metodológico. No que se refere ao primeiro delas, os autores de orientação etológica destacaram sobretudo o conceito de ambiente de adaptação, ressaltando o carácter determinante que o ajuste às exigências deste ambiente tem sobre a conduta. Mas, como aqueles que se situam nesta perspectiva nos ensinam, quando se pensa no ambiente de adaptação não se deve pensar somente no ambiente actual ao qual os membros da nossa espécie têm de se adaptar. É também importante levar em consideração o ambiente ao qual os nossos antepassados tiveram de se adaptar ao longo da evolução da espécie. Alguns padrões de comportamento tiveram em seu momento tal importância para a sobrevivência da espécie que, embora em alguns casos tenham deixado de ser úteis para esse fim, continuaram gravados nos sinais de identidade de todos os membros da espécie. Portanto, os autores de inspiração etológica ressaltam a conexão do desenvolvimento da espécie (filogénese) com o desenvolvimento do indivíduo (ontogénese). Sem dúvida, não o fazem para defender que a ontogénese[1] é uma repetição sintetizada da filogénese[2], senão para ressaltar o facto de que há em todos os seres humanos modelos de comportamento que são melhor compreendidos quando são considerados não como um fruto de circunstâncias vitais individuais, mas senão como uma consequência de uma longa luta pela sobrevivência.

CAPÍTULO II

3.      TEORIA DE LEONTIEV E vygotsky

Contextualização

Leontiev é um dos personagens mais importantes para contextualizar a escola da Psicologia Sócio-histórica, já que, além de ser um de seus fundadores juntamente com Vygotsky e Luria, deu continuidade a alguns construtos de Vygotsky, desenvolvendo sua teoria, atravessando importantes momentos políticos e se tornou um dos marcos da Psicologia Soviética.
Aleixei Nikolaievich Leontiev nasceu em 1904 e morreu em 1979, actuou durante meio século com trabalhos experimentais, defendendo a natureza sócio-histórica do psiquismo humano, sobre a influência da teoria do desenvolvimento social de Marx.

Leontiev estudou também outras áreas da vida humana, como a Pedagogia, a cultura e a personalidade. Fundou a faculdade de Psicologia de Moscou, actuou como conselheiro de diversos órgãos científicos, filosóficos e políticos; desenvolveu muitos trabalhos sobre percepção e imagem e no final de sua vida conceituou o fenómeno “efeito Lobo”, que fornece dados sobre como se formam as imagens na consciência, posteriormente esse fenómeno ficou conhecido como “efeito Leontiev”.

6.1. TEORIA DE LEONTIEV

Nos estudos de Leontiev, assim como nos estudos dos dois outros componentes da troica, observamos que seus pressupostos não desprezam a relevância da evolução e da biologia na formação do homem moderno, mas para eles, esse homem “acabado” sofreu maiores influências das leis sócio-históricas; ou seja, o homem é um ser social, produto da vida em sociedade e da apropriação da cultura. Com efeito, é necessário que o homem passe por um processo denominado humanização a fim de que este possa vir a se tornar verdadeiramente homem, ou seja, um processo histórico-cultural de transmissão das características do género, em que cada indivíduo tem de se apropriar dos conhecimentos, valores e comportamentos produzidos por seu grupo para humanizar-se, evidenciando que a essência humana é uma essência histórica ou histórico-social.

Tal aquisição ocorre através da apropriação dos fenómenos externos da cultura material e intelectual, produzidos por gerações precedentes. Esta forma particular de fixação e transmissão das aptidões humanas se deve à actividade fundamental humana: o trabalho.(LEONTIEV, 2004).

Vale ressaltar que essa essência sócio-cultural só se efectiva a partir da carga biológica da espécie humana; a ontogênese, o processo de hominização, aspecto que não é negado por esses estudiosos, pois foi preciso muitas mudanças evolutivas para que os homens primitivos pudessem transformar-se verdadeiramente em sociedade humana. Houve, de fato, uma preparação biológica que começou a se produzir por influência do trabalho e da linguagem dele decorrente, como necessidade coletiva. Como ressalta Leontiev (2004) a biologia passou então a registrar na constituição anatômica do homem o desenvolvimento da produção, e por assim dizer, a história da sociedade humana. Esta forma de fixação e transmissão das aptidões, particularmente humana, se deve ao trabalho. A partir dele se deu a gênese e o processo de complexificação das funções psicológicas superiores.

Registra-se no entanto, que as condições históricas e o modo de vida da humanidade mudam constantemente, enquanto que as propriedades biológicas do homem contemporâneo, “formado” não sofrem grandes variações a ponto de ter alcance essencial, pois este já possui as modificações biológicas necessárias ao seu desenvolvimento social. Pressupomos então que as modificações naturais hereditárias não determinam o desenvolvimento sócio-histórico do homem; por isso Leontiev (2004, p281) afirma que “apenas as leis sócio-históricas regerão doravante a evolução do homem”.

6.2. TEORIA DE  Vygotsky

De acordo com Vigotski (2008) o desenvolvimento biológico e histórico do ser humano consubstanciados na filogénese e na ontogénese revelam diferenças entre espécie e género humano. Nesse sentido, hominização e humanização constituem aspectos distintos da processualidade humana, ou seja, uma vez constituído o homo sapiens, abrem-se novas necessidades e novas possibilidades, as quais através do trabalho e dos complexos sociais dele decorrentes torna-se possível a consolidação do homem como ser social.

A evolução biológica é regida pelo predomínio da actividade orgânica, ocorrendo com o desenvolvimento histórico, o distanciamento das barreiras naturais sob a regência da actividade instrumental, mediada pela consciência, o que confere um salto ontológico na edificação do ser social. O trabalho exerceria então um papel de transição entre o ser orgânico e o ser social.

Vigotski ao discutir o carácter social das funções psicológicas superiores identifica que estas se apresentam inicialmente de forma externa, como uma relação entre duas pessoas, para depois influenciar a personalidade e tornar-se característica interna. Ou seja, o indivíduo “aprende a ser homem” apropriando-se das formas superiores de comportamento através das relações sociais.

Vigotski ofereceu-nos ainda uma rica contribuição sobre a importância dos instrumentos e dos signos, e também, como eles auxiliam no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, uma vez que, com a emancipação do homem frente à natureza, o património cultural produzido deve ser transmitido pelas relações interpessoais. Existe uma diferença básica entre ser humano e pertencer ao género humano, pois o bebé só consegue se humanizar quando a ele é apresentado as conquistas feitas pelos seus predecessores.

Existem dois processos básicos que facilitam essa mediação: o instrumento, considerado por Vigotski (2008, p.55) como sendo: “o condutor da influência humana sobre o objecto da actividade” e o signo, o qual não actua sobre a natureza externa, e sim sobre o psiquismo humano.

Para Vygotsky, a vivência em sociedade é essencial para a formação do homem de ser biológico em ser humano. Ë pela aprendizagem nas relações com os outros que construímos os conhecimentos que permite nosso desenvolvimento mental. Segundo o psicólogo, a criança nasce dotada apenas de funções psicológicas elementares, como os reflexos e a atenção involuntária, presentes em todos os animais mais desenvolvidos. Com o aprendizado cultural, no entanto, parte dessas funções básicas transformam-se em funções psicológicas superiores, como a consciência, o planeamento e a deliberação, características exclusivas do homem.

O processo de desenvolvimento se apresenta em dois momentos distintos: o nível de desenvolvimento real, determinado por aquilo que o indivíduo é capaz de executar de forma autónoma, e o nível de desenvolvimento potencial, caracterizado por aquilo que o indivíduo ainda não pode realizar de forma independente, mas que pode ser executado com algum auxílio.
A zona de desenvolvimento proximal refere-se ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornaram funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real. A zona de desenvolvimento proximal é, pois, um domínio psicológico em constante transformação: aquilo que uma criança é capaz de fazer com a ajuda de alguém hoje, ela conseguirá fazer sozinha amanhã.
O processo de desenvolvimento progride mais lentamente que o processo de aprendizado; o aprendizado desperta processos de desenvolvimento que, aos poucos, vão-se tornando parte das funções psicológicas consolidadas do indivíduo. Sendo assim a aprendizagem dos alunos vai sendo construída mediante processo de relação do indivíduo com seu ambiente sócio-cultural e com suporte de outros indivíduos mais experientes.

4.      Conclusão

Com a realização do presente trabalho concluímos que Leontiev coloca, que um traço distintivo entre o homem e os outros animais é a sua capacidade de planejar e atingir objetivos conscientemente, acredita que as atividades são formas do homem se relacionar com o mundo, traçando e perseguindo objetivos, de forma intencional, por meio de acções planejadas.

Acreditamos que três factores são de grande relevância no desenvolvimento da sociedade humana: a ordem biológica, filogenia, afinal sem as mudanças evolutivas em órgãos cruciais, o homem não teria alcançado tantos progressos; a ontogenia, destacando os processos de hominização e humanização e a necessidade da vida em grupo; e o trabalho, como mediador da transição da vida orgânica para a social.

Leontiev, assim como Vygotsky, enfatiza muito a importância da linguagem no processo de tomada de consciência frente à realidade social. Para ele, pela consciência pode se perceber as noções de dominação entre classes. Assim, a tomada de consciência também pode ser um ato político.
A consciência é composta por elementos sensoriais e Leontiev atribui a eles o modo pelo qual o sujeito representa o mundo fora da sua consciência, na realidade externa, contribuindo assim para desenvolver o sentido da realidade.

 

5.      Bibliografia

ü  LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa, Livros Horizonte, 1978.

ü  LEONTIEV, A.; O Desenvolvimento do Psiquismo. São Paulo, Centauro, 2004.

ü  PAPALIA, Diane E., et al. Desenvolvimento Humano. 8ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.

ü  VIGOTSKI, L.S., A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo, Martins Fontes, 2008, p. 51-58.

ü  COBRA, R. Q. Konrad Lorenz – O teórico da agressividade e fundador da Etologia. Disponível em:< http://www.cobra.pages.nom.br/ecp-lorenz.html> 2003. Acesso em: 14 de Outubro de 2013.

http://psicologiaacademica.blogspot.com/2012/07/leontiev-e-teoria-da-atividade.html (Acesso em: 14 de Outubro de 2013).

ü  http://psicologia-digital.webnode.com.pt/news/perspectiva-etologica-/ (Acesso em: 14 de Outubro de 2013).


[1] Ontogénese: traduz o conjunto de transformações embrionárias e pós– embrionárias pelas quais passa o organismo vertebrado, desde a fase do ovo até à forma adulta.

[2] Filogénese: estuda a história da evolução humana, nomeadamente a constituição dos seres humanos como sujeitos cognitivos.

 

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Author: O Exame

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