OS PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA

 As pessoas defendem-se inconscientemente da ansiedade que sentem numa situação perturbadora. Podem fazê-lo distorcendo a realidade e enganando-se a si mesmas, dois processos subjacentes que Freud denominou mecanismos de defesa. Todos nós usamos desses mecanismos para proteger nossa auto-imagem, o que é bastante comum em nossa vida diária. Temos necessidade de uma auto-imagem positiva, de aprovar nosso comportamento, e justificá-lo quando necessário. Às vezes, a única maneira de conseguir isso é através de processos inconscientes, iludindo-nos e alterando os fatos reais, de modo a preservar a nossa auto-imagem.

Quando os mecanismos de defesa são levados a extremos, assumindo um papel preponderante na vida das pessoas, a tend6encia dos psicólogos é considerar os comportamentos resultantes como anormalmente perturbados. Existem vários tipos de mecanismos de defesa, e embora os psicólogos divirjam em sua exacta classificação, ou mais comummente apontados são:

 

INTROJEÇÃO: “Termo introduzido por Sandor Ferenczi em 1909, para designar, em simetria com o mecanismo de projecção e introversão (ensinamento auto-erótico), a maneira como um sujeito introduz fantasisticamente objectos de fora no interior de sua esfera de interesse.” Freud adoptaria esse termo, próximo ao de incorporação. Através desse mecanismo arcaico o ego reconstrói de forma ideal o mundo esterno no universo intrapsíquico. Os objectos externos, suas qualidades apaziguadoras são transportados simbolicamente para a organização interna e subjectiva do indivíduo.

 

INCORPORAÇÃO: “Termo introduzido por Sigmund Freud, em 1915 para designar um processo pelo qual um sujeito faz com que um objecto penetre fantasisticamente no interior de seu corpo.” Muito próximo ao termo introjeção, a incorporação esta relacionada com o invólucro corporal. É o interior do corpo que é visado, o sujeito procura incorporar o objecto desejado, com a finalidade de destruí-lo e assimilar as suas qualidades.

 

IDENTIFICAÇÃO: Termo utilizado para designar o processo central pelo qual o sujeito se constitui e se transforma, assimilando ou se apropriando, em certos momentos-chave de sua evolução. Dos aspectos, atributos ou traços dos seres humanos que o cercam. Diante de sentimentos de inadequação o sujeito, internalizará características de uma pessoa valorizada, passando a sentir-se idêntica a esta. A identificação é um processo necessário no início da vida, quando a criança está assimilando o mundo. Mas permanecendo em identificações a criança será impedida de adquirir uma identidade própria.

 

PROJEÇÃO: “Termo utilizado por Sigmund Freud, a partir de 1895, essencialmente para definir o mecanismo da paranóia (…).” É uma reacção até certo ponto normal, quando um sujeito, tem “maus” sentimentos, ou quando um evento doloroso é de sua responsabilidade, ele tende a projectá-lo no mundo externo que a seu ver, assumirá as características daquilo que não suporta perceber em si mesmo. O mecanismo de projecção é utilizado de forma extrema na paranóia.

Onde o sujeito possui um sentimento tão forte de destrutividade em seu interior, que a forma para sentir-se de alguma maneira “aliviado”, é projectando esse sentimento de destrutividade no mundo exterior. A partir desse momento o sujeito, passará a ver o que está no externo como terríveis perseguidores.

 

NEGAÇÃO: Termo proposto por Freud, para caracterizar um mecanismo de defesa utilizado pelo sujeito, que consiste em negar determinados sentimentos, que estariam reprimidos, e ao serem trazidos para a consciência, trariam algum desconforto para esse sujeito.

 

REPRESSÃO: Mecanismo de defesa, que impende que alguns conteúdos mentais, sentidos como perigosos, tomem parte da consciência. É o principal mecanismo de defesa, do qual derivam os demais. Podemos dizer que é a partir da repressão ou recalque, que se formará a base de constituição do inconsciente.

 

RESISTÊNCIA: Este mecanismo de defesa caracteriza-se pela oposição do ego a certos conteúdos mentais que atentem contra os preceitos morais do indivíduo. O fenómeno da resistência ocorre principalmente durante os processos administrados no decorrer de uma sessão analítica.

 

IDEALIZAÇÃO: “Processo psíquico pelo qual, as qualidades e o valor dos objectos desejados, são levados à perfeição. A identificação com o objecto idealizado contribui para a formação e para o enriquecimento para as chamadas instâncias ideais da pessoa (ego ideal, ideal do ego)”. Foi em relação ao termo narcisismo, que Freud chega a definir o termo idealização. O funcionamento da idealização, Freud já demonstrara ao escrever sobre a vida amorosa. ‘(…) é um processo que diz respeito à libido objectal e consiste no facto de a pulsão se dirigir para outra meta, afastada da satisfação sexual (…). A idealização é um processo que diz respeito ao objecto e pelo qual este é engrandecido e exaltado psiquicamente sem alteração de natureza. A idealização é tão possível no domínio da libido do ego como no da libido do objecto. De certa forma a idealização tem sua importância, principalmente na formação do sujeito em sua infância, ao idealizar as figuras dos pais, assimilando seus aspectos exaltados pela identificação a esses aspectos. Mas assumindo uma forma patológica, a identificação é extremamente prejudicial, pois o sujeito ao idealizar demais, os objectos de seu desejo, lidará com figuras imaginárias que na realidade não possuem com tanta intensidade aqueles aspectos exaltado pelo sujeito.

Ao tomar consciência dessa realidade, o sujeito poderá passar por enormes frustrações.

 

DIVISÃO: Processo que ocorre no ego, onde este é capaz de dividir os objectos e de dividir-se. Quando isso ocorre, tanto o ego quanto o objecto ou imagem com a qual ele se relaciona, podem apresentar simultaneamente, características que despertam o amor, o ódio ou temor ao mesmo tempo. Então o ego divide o objecto em dois.

DESLOCAMENTO: “Processo psíquico inconsciente, teorizado por Sigmund Freud, sobretudo no contexto da análise do sonho, o deslocamento, por meio de um deslizamento associativo, transforma elementos primordiais de um conteúdo latente em detalhes secundários de um conteúdo manifesto.” Através desse mecanismo, o sujeito desloca sentimentos, através de um deslizar de uma representação psíquica para outra, no sentido de “descarregar” sentimentos acumulados, geralmente sentimentos agressivos, em pessoas ou objectos considerados menos perigosos. Todos os sentimentos psiconeuróticos acabam tendo a participação do deslocamento.

ISOLAMENTO: Mecanismo de defesa que consiste em isolar, um pensamento, atitude ou comportamento, das conexões que teria com o resto da elaboração mental. O que é assim isolado passa a não ameaçar, porque está separado e não mais conectado aos desejos iniciais. Esse tipo de mecanismo de defesa é típico das neuroses obsessivas, demonstrados através dos rituais, apresentados pelos portadores dessa neurose. Não só o afecto original fica isolado, como o ritual não é associado aos desejos iniciais.

 

FORMAÇÃO REATIVA: “Atitude ou hábito psicológico de sentido oposto a um desejo recalcado e constituído em reacção contra ele (o pudor opondo-se a tendências exibicionistas, por exemplo) “. Em termos económicos, a formação reactiva é um contra-investimento de um elemento consciente, de força igual e de direcção oposta ao investimento inconsciente. As formações reactivas podem ser muito localizadas e se manifestar por um comportamento peculiar, ou generalizadas até o ponto de constituírem traços de carácter mais ou menos integrados no conjunto da personalidade. Um exemplo típico de formação reactiva pode se tomado da atitude daquelas pessoas que perante desejos sexuais intensos, podem transformá-los em um comportamento extremamente pudorosos ou puritanos.

 

RACIONALIZAÇÃO: Esse mecanismo é utilizado pelo sujeito, para abstrair-se de vivências afectivas, e ao utilizar premissas lógicas, ele tenta justificar suas atitudes. Com isso ele tenta provar que é merecedor do reconhecimento dos outros. Ele seleccionará da realidade algumas informações fragmentadas que justifiquem sua conduta, e todo o seu pensamento será elaborado em cima delas.

REGRESSÃO: Ocorre em situações em que o indivíduo, ao se deparar com algum tipo de frustração, regride inconscientemente, a níveis anteriores de desenvolvimento psíquico, caracterizado por respostas menos maduras à situação presente. Nesse tipo de ocorrência, o sujeito buscará refúgio num modelo infantil, onde se sentia mais feliz.

SUBLIMAÇÃO: “Sigmund Freud conceituou o termo em 1905 para dar conta de um tipo particular de actividade humana (criação literária, artística, intelectual) que não tem nenhuma relação aparente com a sexualidade, mas que extraí sua força da pulsão sexual, na medida em que esta se desloca para um alvo não sexual, investindo objectos socialmente valorizados.” É considerado o mecanismo de defesa mais evoluído e é característico do indivíduo “normal”. Dentro da perspectiva da teoria freudinana, os desejos sexuais, considerados em sua amplitude, quando não podem ser realizados literalmente, são canalizados pelo ego, para serem satisfeitos em actividades simbolicamente similares e socialmente aceitas.

 

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Author: O Exame

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