Limites e possibilidades da Psicanálise na Educação

 

Comenta-se muito – e até se firma na legislação educacional – que uma das tarefas da educação escolar é contribuir para a formação da personalidade da pessoa. Sob o prisma da Psicanálise, essa pretensão deve ser relativizada, pois os alicerces do carácter do indivíduo já se encontram firmados quando ele vai pela primeira vez à escola. Quando o professor entra em cena na vida da criança, tem diante de si um indivíduo cujos traços fundamentais do ego já estão sedimentados. Todas as vivências orais, anais, masturbatórias, todo o conflito edipiano que sustenta o superego, enfim, traços fundamentais do ego e de suas relações com o id já se encontram definidos nesse momento. Recalcamentos, repressões, mecanismos de defesa do ego e de ocultamento de desejos já fazem parte da personalidade. O que pode fazer o professor, então?

Vimos acima que o professor, orientado pelos conhecimentos psicanalíticos, dispõe de saberes que lhe permitem conhecer – ou ao menos supor – o que se passa com seu aluno nas diferentes fases de seu desenvolvimento, o modo como sua libido se manifesta, os conflitos pelos quais atravessa e as angústias das quais está sendo vítima. O professor que compreende a Psicanálise está à frente dos demais, pois tem em mãos um quadro de referências que fornece um panorama, ainda que não específico, sobre a vida psíquica da criança e do adolescente. Mas o professor não constrói a personalidade de seu aluno. Ele pode, sim, agir de modo a não agravar certas tendências do carácter de seu educando. Uma criança que possua auto-imagem excessivamente negativa, um jovem obcecado pela ordem e pela disciplina, um aluno que agride desmesuradamente as autoridades – para ficar em extremos – são exemplos de casos que, muitas vezes, obtêm a confirmação de suas tendências nas atitudes do professor. Ao invés de amenizar certas inclinações já constituídas, o professor, por descuido ou excesso de zelo, acaba fazendo recrudescer traços de personalidade que trazem sofrimento ao educando. O psicanalista francês Georges Mauco escreveu que uma das contribuições da Psicanálise à educação consiste em elucidar a importância do mestre como modelo e possibilitador de diálogo. Como modelo, porque a teoria psicanalítica não deve ser confundida com ausência de autoridade e liberdade total para a realização de desejos reprimidos. Mauco ressalta a integridade psicológica do mestre como recurso para a boa equilibração da personalidade dos alunos. Ao fornecer-lhes um ego ideal com que possam identificar-se, o professor trabalha para que as energias irracionais do inconsciente possam ser convertidas em forças socialmente úteis. Possibilitar diálogo significa, para Mauco, respeitar a pessoa e manter a necessária distância entre adulto e criança, para que esta possa adquirir autonomia e compreensão das regras que constituem a vida colectiva. Reafirma-se, assim, o papel do mestre como autoridade capaz de nortear a vida pulsional de seus educandos, antes que outras agências sociais o façam, causando danos para o indivíduo e para a sociedade. O professor pode contribuir muito, a começar, sem dúvida, pelo abandono do sentimento de onipotência que atribui a ele o poder de moldar a personalidade do aluno. Uma das aflições do educador, não só nessa etapa da escolarização, é a incapacidade que sente diante de certas atitudes das crianças e dos jovens. O professor possui objectivos, conceitos e valores que deseja ver reflectidos nas pessoas que educa e sente-se frustrado, muitas vezes, por não conseguir fazer valer o seu exemplo de vida. Seus alunos não são as pessoas que ele gostaria que fossem. Essa frustração instala-se quando o professor não percebe a dinâmica de seu inconsciente e se deixa levar por vínculos transferenciais. Mais ainda, quando não considera a história de constituição da personalidade do outro. A busca do entendimento desses dois aspectos, presentes em todas as nossas relações interpessoais, não só as que se passam na escola, é uma maneira de amenizar frustrações. O professor precisa reconhecer que seu esforço como educador pode não obter muitos resultados na formação da personalidade do aluno, e isto não implica apatia e aceitação cómoda dos problemas com que se depara. Esse reconhecimento ocasiona, isto sim, empenho ainda maior na superação de seus próprios conflitos interiores e na percepção dos pequenos ganhos que um simples gesto pode trazer.

O paradigma psicanalítico, certamente, não comporta indicações quanto a procedimentos, técnicas ou modelos de acção pedagógica, o que caberia ser desenvolvido por especialistas em metodologia de ensino. Como paradigma, a Psicanálise não passa de um referencial de compreensão do ser humano. Eis o seu papel como ciência que contribui para uma Psicologia da Educação.

 

 

Bibliografia

 

CUNHA, M.V. Psicologia da Educação. Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2008. ISBN-13: 9788598271507. (sic)

 

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Author: O Exame

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