Currículo Pré-escolar High/Scope: abordagem aberta de teorias de desenvolvimento e práticas educacionais


Este modelo rege-se por princípios orientadores, que permitem ao educador organizar, interpretar e agir de acordo com o que as crianças fazem, necessitam e descobrem através da sua aprendizagem. Estes princípios facilitam as interacções dentro da sala entre o grupo das crianças e as interacções das crianças com os adultos, o trabalho da equipa pedagógica, as relações pais-educadores e planificação de um programa adequado às necessidades e interesses das crianças.

Os princípios orientadores do High/Scope são: aprendizagem activa e experiências-chave; interacções adulto criança; organização do ambiente físico; horários e rotinas; observação e avaliação da criança. O processo de aprendizagem, segundo a abordagem High/Scope, é entendido como uma inter-relação entre as acções da criança, orientadas para um objectivo, e as realidades ambientais que afectam essas acções. O cerne deste modelo reside, portanto, na aprendizagem na criança, através da sua acção sobre os objectos e da sua interacção com os outros, com ideias e factos, construindo, desta forma, novas aprendizagens e conhecimentos, isto é, construindo a sua aprendizagem pela acção (Hohmann & Weikart, 1997).

Contextualização

A abordagem High/Scope foi inicialmente criada para servir as crianças “em risco” de bairros pobres em Ypsilanti, Michigan. Este projecto foi iniciado por David P. Weinkart para dar resposta ao insucesso persistente de alunos do ensino secundário. No entanto com o passar dos anos concluiu-se que o insucesso escolar destes jovens no ensino secundário se relacionava directamente com a inadequada preparação escolar que eles haviam tido ao longo do ensino primário. Desta forma começou a pensar-se que o mais adequado seria aplicar o projecto High/Scope Perry Preschool Project (como foi inicialmente conhecido) desde logo a partir dos 3 anos.

O currículo High/Scope é uma abordagem aberta de teorias do desenvol­vimento e práticas educacionais que se baseia no desenvolvimento natural das crianças.

A abordagem High/Scope além de outros teóricos teve como aporte teórico Jean Piaget e Jonh Dewey. Segundo Piaget citado em Hohmann & Weikart (1995), relata que o papel do professor consiste basicamente em despertar curiosidade da criança e estimular o espírito de investigação. Dessa forma, a criança tem uma função activa na construção de seu conhecimento. O conhecimento não é dado, mas efectua-se através de acções. De acordo com Jonh Dewey (1933) citado por Hohmann & Weikart (1995), quando a educação é baseada na experiência e esta é vista como processo social, o professor perde a posição de patrão ou ditador das actividades de grupo e assume a de líder. O Currículo High/Scope considera a criança como aprendiz activo que aprende melhor a partir das actividades que ela mesma planeja, desenvolve e sobre as quais reflecte.

Os adultos organizam as áreas de interesse no ambiente de apren­dizagem, mantêm a rotina diária que permite às crianças o planeamento e busca de suas próprias actividades e juntam-se às actividades das crianças para ajudá-las a reflectir. Os adultos encorajam as crianças a envolverem-se em experiências-chave, ajudam-nas a aprender a fazer escolhas, a resolver problemas e a engajar-se em actividades que promovam o desenvolvimento intelectual, social e físico. (pp. 1-4)

 

Princípios básicos do Currículo High/Scope

 Segundo (pp. 1-4), os princípios básicos do currículo High/Scope emergiram tendo como corpo central o processo de planear-fazer-rever. Os professores do Perry Preschool Project deram as crianças tempo para planear as suas actividades, para as por em prática e para reflectir sobre o que tinham feito. Os professores levavam mães e pais a pensar sobre os processos de escolarização, enquanto estes, por seu lado, alertavam os professores para os interesses e necessidades das crianças e da família.

Abordagem da Aprendizagem pela Acção

Esta abordagem High Scope proporciona às crianças a realizar escolhas e tomar decisões a partir da aprendizagem pela acção.

Através da aprendizagem pela acção – viver experiências directas e imediatas e retirar delas significado através da reflexão – as crianças pequenas constroem o conhecimento que as ajuda a dar sentido ao mundo. O poder da aprendizagem activa vem da iniciativa pessoal. As crianças agem no seu desejo inato de explorar; colocam questões sobre pessoas, materiais, acontecimentos e ideias que lhes provocam curiosidade e procuram as respostas; resolvem problemas que interferem com os seus objectivos; e criam novas estratégias para porem em prática (HOHMANN & WEIKART, 1995, p.5).

Nesse sentido, a aprendizagem pela acção promove interacções criativas das crianças com pessoas, objectos e ideias, desenvolvem as múltiplas dimensões que conformam a existência humana: intelectual, emocional, social e físico. Estas interacções propiciam a criança a imaginar, desempenhar papéis, formar relações com outras crianças e adultos, brincar com a linguagem, expressar sua criatividade e indicar suas intenções através de gestos, acções e palavras. Esta aprendizagem activa é definida como um processo em que a criança, através de sua acção sobre os objectos e de sua interacção com as pessoas, chega à compreensão do mundo.

Interacção Adulto – Criança

Esta aprendizagem activa que o Currí­culo High/Scope tanto fala, depende inequivocamente da interacção positiva entre os adultos e as crianças. Os adultos deverão apoiar as conversas e brincadeiras das crianças, deverão ouvi-las com atenção e fazer os seus comentários e observações que considere pertinentes. Desta forma a criança sentir-se-á confiante e com liberdade para manifestar os seus pensamentos e sentimentos.

 

Contexto de Aprendizagem

Dado que o contexto físico tem um grande impacto no comportamento de crianças e adultos, o Currículo High/Scope coloca uma grande ênfase no planeamento da estrutura da pré-escola – ou centro educativo na selecção de variedades de materiais que atraiam e criem oportunidade as crianças a escolher, manipular, criar e imaginar. Necessitam de espaço para se mover livremente, falar à vontade o que está o disposto a fazer; espaço para guardar as suas coisas e mostrar suas invenções. Os educadores que usam a abordagem High/Scope devem organizar os espaços de modo que as crianças possam ter um maior número possível de oportunidades de aprendizagem pela acção e exerçam controle sobre seu ambiente. O ambiente de aprendizagem é organizado de modo a acomodar um número de áreas de interesses definidas tais como: área da casa, da leitura e da escrita, dos blocos as actividades artísticas, com uma variedade de materiais facilmente acessíveis (HOHMANN & WEIKART, 1995, pp.7-8).

Rotina Diária

A aprendizagem activa também é apoiada por meio de uma rotina diária organizada em função dos contextos sociais, oposta a propostas curriculares que se organizam em função dos conteúdos escolares. A rotina ajuda os adultos a possibilitarem às crianças experiências motivadoras, activas, com tempo suficiente para elas buscarem seus interesses, fazer escolhas, tomar decisões e resolver problemas. De acordo com o currículo High/Scope, uma rotina sólida vai além de um conjunto de rótulos para uma sequência de actividades, ou seja, é contrária às rotinas organizadas em torno das actividades dos adultos.

Nos ambientes High/Scope a rotina diária é construída a partir de momentos em pequenos grupos, tempo em grande grupo, tempo de área livre, tempos de transição e a sequência planejar-fazer-rever. Esta sequência é o elemento primordial da rotina diária da High/Scope, com duração aproximada de uma hora e meia e é dividida em três partes.

No planejar, a criança decide o que irá fazer e compartilha essas ideias com o adulto. Neste processo de planeamento da criança, o adulto regista de algum modo o plano da criança, compreendendo e estimulando-a a colocar em prática seus interesses a partir de acções intencionais. No momento de trabalhar, as crianças põem em prática seu plano inicial e outras actividades, brincando sozinhas ou em cooperação com outras crianças. Enquanto as crianças trabalham, brincam, os adultos observam o que elas fazem e as apoiam, ajudando quando necessário. No momento de rever, as crianças compartilham e discutem o que fizeram para os adultos e eles escutam com atenção e conversam com elas sobre suas experiências no período do trabalho (HOHMANN & WEIKART, 1995, p.8).

Avaliação

 

Avaliar segundo a abordagem Pré-Escolar High/Scope implica um conjunto de tarefas. Os educadores deverão fazer um registo diário de notas ilustrativas, baseando-se naquilo que vêem e ouvem quando observam as crianças. Avaliar significa então trabalhar em equipa para construir e apoiar o trabalho nos interesses e competências de cada criança (HOHMANN & WEIKART, 1995, pp.8-9).

Considerações Finais

Utilizar a abordagem High/Scope na prática diária da Educação Infantil possibilitará uma promoção da autonomia da criança através das relações estabelecidas nos espaços a partir da interacção entre as crianças e adultos através da acção. Além disso, por meio de uma variedade de períodos de aprendizagem, experiência e manipulação com os objectos presentes nas áreas de interesse. O modelo High/Scope é uma abordagem aberta de teorias de desenvolvimento e práticas educacionais que se baseiam no desenvolvimento natural das crianças. Podemos dizer ser um enfoque educativo orientado para o desenvolvimento da criança e da sua aprendizagem, integrando as perspectivas intelectual, social e emocional.

Ancorado nas teorias de Jean Piaget e seus seguidores acerca do desenvolvimento infantil, o modelo considera a criança como aprendiz activo que aprende melhor a partir das actividades que ele mesmo planeia, desenvolve e sobre as quais reflecte.

Com a rotina diária proposta por este modelo espera desenvolver-se, nas crianças, competências de planeamento das suas actividades e reflexão final sobre o seu desenvolvimento. O controlo das actividades é partilhado entre a criança e o adulto, apesar de este ter um papel fundamental no apoio à aprendizagem da escolha e da resolução de problemas.

Segundo este modelo pedagógico, o ímpeto da aprendizagem surge de dentro da criança. São os seus interesses pessoais, as suas questões e curiosidades que impulsionam a exploração, experimentação e a consequente construção de novos conhecimentos (Hohmann & Weikart, 1997). O confronto com novas situações e problemas são cruciais para o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e de pensamento, pois, ao deparar-se com situações novas, a criança é conduzida a relacionar os seus conhecimentos prévios com as novas situações, analisando-os, adequando-os, testando-os e modificando-os. É, portanto, no confronto com problemas e novas situações que a criança é estimulada a pensar, refletir, adaptar e aperfeiçoar os seus conhecimentos prévios, o que conduz a uma consequente aprendizagem de novos conhecimentos.

 

Bibliografia

  • Hohmann, M. & Weikart, D. (1997). Educar a criança. Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian.

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Author: O Exame

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