Aconselhamento Psicológico: ideias sobre o aconselhamento e elementos essenciais do processo de aconselhamento psicológico


 1.      Introdução

O presente trabalho insere-se no âmbito do Curso de Licenciatura em Psicologia Educacional na Cadeira de Aconselhamento Psicológico. Neste artigo, apresentam-se os fundamentos teóricos e ideias sobre o aconselhamento, alguns preceitos básicos que expõem os elementos essenciais do processo de aconselhamento psicológico e uma descrição das características do profissional competente. Inevitavelmente, essas qualidades derivam-se e alimentam-se dos preceitos fundamentais da ajuda efectiva, porque o processo de aconselhamento psicológico não pode ser compreendido isoladamente da pessoa do psicólogo.

Existem certas atitudes que o psicólogo assume e que facilitam o crescimento e progresso do cliente. Essas atitudes são não somente fundamentais como também necessárias e suficientes para o encaminhamento do processo de aconselhamento assim como de qualquer relação de âmbito psicológico.

O método de pesquisa utilizado foi qualitativo por abranger o maior número de informações possíveis. Para que melhor se compreendesse esta temática, procurou-se em primeiro lugar trazer de forma sintética as abordagens feitas na turma do Curso de Licenciatura em Psicologia Educacional 3°Ano Regular 2015, na disciplina de Aconselhamento Psicológico, e a posterior foram efectivadas pesquisas bibliográficas sobre o tema.

O artigo apresenta a seguinte estrutura: a presente Introdução  (objectivos e metodologia),  Referencial teórico  (contextualização e definição de conceitos) e finalmente considerações finais.

2.      Referencial Teórico

 Segundo Patterson & Einsenberg (1988, p.19), Aconselhamento é um termo que pode ser usado para descrever diversas actividades. Inicialmente, nas escolas, a prática de aconselhamento consistia em oferecer os jovens e pessoas inexperientes conselho e instrução sobre o que deveriam fazer.

Após a publicação de Counseling and Psychotherapy (1942), de Carl Rogers, o aconselhamento, como um serviço de ajuda humana, começou a transformar-se e a aliar-se a psicologia e ao serviço social, embora conservando alguns de seus vínculos históricos com a educação.

O trabalho embrionário de Rogers propunha que as soluções de uma pessoa talvez não se ajustassem as capacidades, valores ou objectivos de outra, e que para ser um conselheiro efectivo era necessário conhecer o cliente inteiramente.

A partir do momento em que se percebeu que pessoas diferentes poderiam desenvolver respostas distintas a mesma situação e estar igualmente satisfeitas com os resultados, o papel do conselho propriamente dito e do ensino no aconselhamento foi reduzido drasticamente e o foco do aconselhamento passou a ser ajudar as pessoas a clarificarem seus próprios objectivos e construírem planos de acção de acordo com os mesmos. Tal abordagem enfatiza o potencial único de cada indivíduo e define o papel do conselheiro como facilitador do crescimento pessoal.

Orientação do ponto de vista psicológico, significa facilitação do conhecimento e análise de direcções para a conduta, com base em referências pessoais e sociais.

Para que o processo de Aconselhamento psicológico se efective ou concretize deve respeitar as três esferas: Sentimento, Pensamentos e Percepção.

Estas esferas permite-nos ter vínculo em relação ao ambiente em nossa volta, entender como o ser humano percebe ou interpreta as coisas. Reflecte nossas acções ou ideias e existindo um problema no cliente terá tendência de alterar o curso normal do seu pensamento.

Em suma, servimo-nos destas esferas para detectar os problemas do cliente, para a posterior intervir em torno do que sente, pensa e percebe sobre o problema.

3.      Processo de aconselhamento Psicológico

O processo de aconselhamento psicológico decorre de acordo com a construção de uma aliança entre dois intervenientes psicólogo e paciente ou cliente. Para que esta aliança seja efectiva há uma necessidade de três competências, a saber:

    1. Escuta Clínica: nesta exige-se controlar as visualizações ou relatos do paciente, a expressão facial, gestos e movimentos físicos.
    1. Empatia: refere-se ao psicólogo em se colocar no lugar do outro.
    1. Reflexão: nesta, pensamos na linhagem terapêutica a seguir, números de sessões a ter e dinâmica terapêutica.

Como pode-se notar nas palavras de Eisenlohr (1999),  quando diz que o processo de aconselhamento psicológico envolve a construção duma aliança entre o conselheiro e o paciente, na qual quem promove a entrevista de aconselhamento disponibiliza tempo e liberdade para que o paciente explore os seus pensamentos e sentimentos, numa atmosfera de confiança, respeito e neutralidade. Para atingir este objectivo, o psicólogo utiliza competências básicas de aconselhamento como a escuta activa, a empatia e a reflexão, tentando compreender o paciente e a situação em que se encontra. E como defendem Morato & Schmidt (1999), o processo centra-se na compreensão que o sujeito tem da situação em que se encontra e as escolhas a fazer e decisões a tomar sustentam-se nos seus próprios insights. 

Estas competências requererem características específicas do psicólogo (conselheiro): superior capacidade intelectual, insaciável curiosidade científica, interesse pelas pessoas, insight sobre as características pessoais, tolerância etc. Diante disto, assumimos uma posição crítica face a imagem do conselheiro requerida, que achamos que para além da formação académica do profissional, existem vários outros aspectos que precisam ser explorados pelo próprio conselheiro, a psicoterapia individual. Tem que explorar suas potencialidades e vivências para que menos temor lhe causem as experiências dos pacientes.

Segundo Patterson & Einsenberg (1988, p.28), no início do aconselhamento, orientador e cliente não se conhecem bem. Nem um, nem outro pode saber antecipadamente a direcção que a discussão tomará e, provavelmente, o cliente está um pouco ansioso em relação as preocupações que vai revelar, pois não está seguro de como será recebido.

Carkhuff (1973) e Egan (1982) descrevem o prestar atenção como um importante comportamento do orientador no começo do aconselhamento. Consiste simplesmente em interessar-se de modo atento pelas palavras e acções do cliente. Demonstra-se atenção pela postura, expressão facial e contacto pelo olhar. Deve-se observar o comportamento do cliente a fim de se apreenderem os sinais de conteúdo e emoção, como irrequietude, tom de voz, dificuldade em manter contacto pelo olhar, que podem não estar contidos na mensagem verbal (Patterson & Einsenberg 1988, p.28).

Esta visão corrobora com a conceito de Andrade (2001),  quando refere que  Aconselhamento Psicológico é um processo de escuta activa, individualizado e centrado no paciente.  Pressupõe a capacidade de estabelecer uma relação de confiança entre os interlocutores, visando ao resgate dos recursos internos do paciente para que ele mesmo tenha possibilidade de reconhecer-se como sujeito da sua própria transformação.   Ainda podemos destacar Schmidt (1999), que define o aconselhamento como uma relação face-a-face de duas pessoas, na qual uma delas é ajudada a resolver dificuldades de ordem educacional, profissional e vital.

3.1.Fases para a concretização do Processo de Aconselhamento Psicológico

Rogers (1966) citado por Almeida (1999)  defende que o aconselhamento envolve três (3) fases sucessivas, cuja utilidade é a de sistematizar a intervenção e identificar o tipo de competências de aconselhamento que é necessário usar em cada fase:

    1. Exploração do problema

No contexto da relação interacional entre o conselheiro e o paciente no processo de aconselhamento psicológico é facilitada no sujeito uma atitude de exploração do problema, que permita a sua identificação e caracterização a partir do seu próprio ponto de vista, bem como a focalização em preocupações específicas que eventualmente estejam presentes. Esta fase exige escuta activa, com compreensão empática, aceitação positiva incondicional, frequentemente explanando e reflectindo sentimentos, sumarizando, focalizando e ajudando o paciente a ser específico.

    1. Nova compreensão do problema

Trata-se de ajudar o sujeito a ver-se a si próprio e a situação em que se encontra numa nova perspectiva e de focalizar naquilo que poderá ser feito para lidar mais eficazmente com o problema. Nesta altura, o cliente geralmente também tem que ser ajudado a identificar os seus recursos pessoais e extra pessoais. Esta fase exige mais especificamente a utilização da compreensão empática, transmissão de informação, ajuda para que o cliente reconheça sentimentos, temas, inconsistências e padrões de comportamento.

    1. Acção

 Trata-se de facilitar o paciente a consideração das possíveis formas de agir, a avaliação dos seus custos e consequências, a construção dum plano de acção e a forma de implementá-lo. Isto implica focalizar na resolução de problemas, pensamento criativo e processo de tomada de decisão. Momento em que fornece novos modelos de comportamento, fortificação de resiliência e estratégias de coping[1].

4.      Utilidade e Importância de aconselhamento Psicológico

Em geral, o aconselhamento psicológico visa facilitar uma adaptação mais satisfatória da pessoa à situação em que se encontra e aperfeiçoar os seus recursos pessoais em termos de autoconhecimento, auto-ajuda e autonomia (Morato & Schmidt, 1999).

A finalidade principal é promover o bem-estar psicológico e a autonomia pessoal no confronto com as dificuldades e os problemas, bem como a mudança concreta do comportamento da pessoa e constitui-se como parte integrante dos processos de melhoria da qualidade em saúde psíquica, bem como a humanização dos serviços e a prática de relações sociais saudáveis (Eisenlohr, 1999).

Segundo Eisenlohr (1999), os objectivos do aconselhamento psicológico estão relacionados com três componentes diferentes, cujo peso específico pode variar em cada intervenção ou em cada caso em função das necessidades específicas do cliente:

    • Ajuda para lidar com as dificuldades, identificar as soluções, tomar decisões e mudar comportamentos, bem como disponibilizar ajuda para dar resposta às necessidades psicológicas dos clientes.
    • Pedagogia relacionada com a transmissão de informação, ou seja transmitir informação personalizada, bem como promover o desenvolvimento de competências sociais.
    • Apoio relacionado com a transmissão de segurança emocional, facilitação do controle interno e promoção da autonomia pessoal, bem como aumentar o autoconhecimento e a autonomia, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e a redução do nível de stress.

Desta forma, o aconselhamento psicológico ao longo do tempo tem revelado três papéis centrais (Morato & Schmidt, 1999):

Papel remediativo: Envolve trabalhar com indivíduos ou grupos e corrigir problemas de um ou de outro tipo. As intervenções remediativas podem incluir o aconselhamento pessoal e social.

Papel preventivo: Os conselheiros procuram excluir dificuldades futuras. As intervenções preventivas visam prevenir o desenvolvimento dos problemas ou acontecimentos.

Papel desenvolvimentista: O seu objectivo é ajudar os indivíduos a planear, obter e a derivar os máximos benefícios dos tipos de experiências que os capacitarão a descobrir e a desenvolver as suas potencialidades.

 5.      Considerações Finais

Como notamos no presente artigo, o aconselhamento psicológico permite incluir um conjunto diverso de aspectos psicológicos, emoções, sentimentos e crenças do indivíduo na intervenção. Como vimos o processo de aconselhamento vai além de dominar diversas teorias psicológicas, há necessidade ainda de uma base de competências do conselheiro para que possa efectivamente levar outras pessoas a extroversão, encorajar a se comunicarem aberta e sinceramente com eles. Ser capaz de concentrar-se plenamente no que lhes está sendo transmitido, não apenas para compreende conteúdo do que está sendo expressado, mas também para avaliar a relevância do que o outro está dizendo, em relação ao seu bem-estar presente e futuro. Assumimos ainda que a aliança no Aconselhamento Psicológico só poderá ser conseguida quando o conselheiro inspirar sentimentos de segurança, credibilidade e confiança nas pessoas a quem ajudam, desta maneira elas não irão se sentir embaraçados, envergonhados, nem serão ridicularizados ou criticados pelos pensamentos, sentimentos e percepções. Nesta ordem de ideias, pensarmos no processo de aconselhamento psicológica, pensamos exactamente na relação de duas ou mais pessoas voltadas para a consideração atenta, respeitosa e prudente de algo que é que vital para uma ou várias delas. Aconselhar, nesse sentido, não significa fazer ou pensar pelo outro, mas fazer ou pensar com o outro (Schmidt, 1987).

 6.      Bibliografia

Almeida, F.M. Aconselhamento Psicológico Numa Visão Fenomenológica-Existencial: Cuidar de ser. In Morato, H.T.P. Aconselhamento Psicológico: novos desafios.  São Paulo. Casa do Psicólogo, 1999.

Andrade, A. N. Formação em Psicologia Hierarquia versus Antropofagia. Revista Psicologia e Sociedade, vol. 13, no. 1 29-45. ABRAPSO, São Paulo, 2001.

Eisenlohr, M.G.V. Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP: breve histórico de sua criação e mudanças ocorridas na década de 90. In Morato, H.T.P. Aconselhamento Psicológico: novos desafios.  São Paulo. Casa do Psicólogo, 1999.

Lazarus, R. S., & Folkman, S. Stress, appraisal, and coping. New York: Springer, 1984.

Morato, H.T.P. Aconselhamento Psicológico: uma passagem para a transdisciplinaridade. In Morato, H.T.P.  Aconselhamento Psicológico: novos desafios.  São Paulo. Casa do Psicólogo, 1999.

Patterson, L. E. & Einsenberg, S. O Processo de Aconselhamento. 1ªed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Schmidt, M. L. S. Aconselhamento psicológico: questões introdutórias. In Rosenberg, R. L.(Eds), Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo:EPU, 1987.

[1] coping é definido como um conjunto de esforços, cognitivos e comportamentais, utilizado pelos indivíduos com o objectivo de lidar com demandas específicas, internas ou externas, que surgem em situações de stress e são avaliadas como sobrecarregando ou excedendo seus recursos pessoais (Lazarus & Folkman, 1984).

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Author: O Exame

1 thought on “Aconselhamento Psicológico: ideias sobre o aconselhamento e elementos essenciais do processo de aconselhamento psicológico

  1. O processo de aconselhamento psicológico decorre de acordo com a construção de uma aliança entre dois intervenientes psicólogo e paciente ou cliente…Abraços!

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