A teoria dos construtos pessoais

1. Contextualização

George Kelly, norte-americano nascido em 1905, fez graduação em Matemática e Física, mestrado em Sociologia Educacional e doutorado em Psicologia. Durante a maior parte de sua carreira foi professor de Psicologia na Ohio State Univerity. (Moreira, 1999:123).

Construtos

Um construto é uma representação do universo, ou de parte dele, uma representação erigida pela criatura viva e então testada frente à realidade do universo. Como o universo é essencialmente um curso se eventos, a testagem de um construto é uma testagem frente a eventos subsequentes. Isso significa que um construto é testado em termos de sua eficiência preditiva (Kelly, 1963:12).

Em outras palavras, o homem vê o mundo através de moldes, ou gabaritos, transparentes que ele cria e então tenta ajustar a eles as realidades do mundo. O ajuste nem sempre é bom, mas sem tais moldes, o mundo parece uma homogeneidade indiferenciada a qual o homem não consegue dar sentido. Esses padrões, moldes, gabaritos, que o homem constrói para dar sentido às realidades do universo, Kelly chama de construtos (Kelly, 1963:9).

Em geral, o homem procura melhorar sua construção aumentando seu repertório de construtos, ou alterando-os para melhorar o ajuste, ou subordinando-os a construtos super ordenados que se constituem em sistemas de construção. Mas este processo é muitas vezes descontinuado pelo dano que uma alteração em um construto subordinado traria a um construto super ordenado. Frequentemente, o investimento pessoal na modificação de um construto super ordenado, ou a dependência que o indivíduo tem a relação a ele, é tão grande que ele ignora a adopção de um construto subordinado mais preciso.

Construtos ou sistemas de construção que podem ser comunicados podem ser compartilhados, inclusive em larga escala. Alguns sistemas de construção compartilhados em larga escala, ou sistemas públicos, são elaborados para que determinados domínios, ou campos, de eventos a eles se ajustem. Por exemplo, os construtos da Física para eventos físicos, da Psicologia para eventos psicológicos. Esta delimitação de domínios pode ser artificial em muitos casos, mas é importante reconhecer que há limites até onde é conveniente aplicar certos construtos ou sistemas de construção. É sempre tentador estender esses limites para construtos que se mostraram muito úteis. Mas muitas vezes isso não funciona, como é o caso do construto físico “energia” que não tem muito sentido quando usado em eventos psicológicos, e.g., “energia mental”. (Kelly, 1963:35)

Os construtos, ou os sistemas de construção, não só têm limites de conveniência como também focos de conveniência. Ou seja, há pontos dentro de um domínio de eventos nos quais eles funcionam melhor. Geralmente, são os pontos que o construtor tinha em mente quando edificou o construto. (Kelly, 1963:11)

A noção de “homem-cientista” está muito presente aqui. A teoria que um cientista formula é um sistema de construção com um foco e um âmbito de conveniência. Essa teoria é, em geral, imediatamente testada e tão pronto, isso é feito e quase certo que o cientista começa a modificá-la à luz dos resultados. Toda teoria tende, então, a ser transitória, assim como os construtos do “homem-cientista”. A testagem imediata de construtos, uma das características do método experimental na ciência, também caracteriza, segundo Kelly, qualquer pessoa alerta. (Kelly, 1963:13)

Kelly organizou a sua teoria dos construtos pessoais com base num postulado fundamental elaborado por meio de onze (11) corolários. Estes no seu conjunto definem processos comuns de organização do conhecimento humano, salvaguardando a diferenciação e unicidade dos conteúdos a eles associados.

Desta feita, apresentamos o postulado fundamental e corolários.

1.1. Postulado fundamental

“Os processos de uma pessoa são canalizados psicologicamente pelas maneiras em que ela antecipa eventos.” (A conduta de uma pessoa no presente está determinada pela maneira em que ela antecipa eventos futuros). Define uma relação “simbiótica” entre a construção e a antecipação dos acontecimentos de vida. Os processos de construção são de vária ordem, fisiológica, psicológica ou neurológica (Fransella & Bannister, 1977), e consistem em acções de discriminação.

Quando nos tornamos capazes de notar semelhanças e diferenças entre os acontecimentos de vida que se repetem, nós estamos aptos a antecipar o significado de acontecimentos futuros, isto é estabelecemos relações hipotéticas de similaridade ou diferenciação entre os acontecimentos (qualquer experiência quotidiana emocional, cognitiva ou comportamental vivida pelo sujeito, a um nível de consciência superficial ou tácito) previamente experienciados e os que antecipamos.

Esta ideia constitui o núcleo duro da teoria, segundo o qual os construtos pessoais são hipóteses que permitem á pessoa antecipar e compreender a experiência da realidade com que se confronta, sendo que a antecipação funciona como um guia para a acção, estando intimamente relacionada quer com a manutenção do sistema, quer simultaneamente com as possibilidades de mudança (Feixas, 1990).

1.1.1.      Corolário da construção:

“Uma pessoa antecipa eventos construindo suas réplicas.” (A antecipação de eventos necessita de construtos pessoais). A eleição de temas recorrentes da nossa experiência do mundo em que actuamos, fornece-nos uma referência e uma margem de segurança para a antecipação dos acontecimentos futuros. A procura e reconhecimento de semelhanças entre os acontecimentos vividos pelo sujeito e a sua diferenciação de outros, é o aspecto central no processo de construção pessoal, pois é na antecipação activa do semelhante e do diferente, que o individuo procura manter a estabilidade do seu sistema de construtos pessoais.

1.1.2.      Corolário da individualidade:

“As pessoas diferem umas das outras nas suas construções de eventos.” (O sistema de construtos de uma pessoa é único). O carácter interpretativo e proactivo da construção do conhecimento pessoal sobre as suas experiências do sujeito faz com que, em cada momento, cada pessoa tenha uma forma única de perceber o mundo. Este corolário também reflecte a variabilidade na interpretação dos acontecimentos quer a nível intra-individual quer inter-individual, fundamentando que pessoas distintas antecipem a mesma situação de forma diferente a ajam de modo coerente com essa antecipação, construindo-a de modo distinto.

1.1.3.      Corolário da experiência:

“O sistema de construção de uma pessoa varia à medida que ela constrói, sucessivamente, réplicas de eventos”. (O sistema se construção de modifica; a pessoa reconstrói seus construtos.). este corolário desafia-nos a compreender o processo e viver como uma exigência á reforma dos nossos pressupostos pessoais, enfatizando que a experiência não é algo que nos acontece objectivamente, mas a sucessiva interpretação e reinterpretação do que nos acontece.

1.1.4.      Corolário da organização:

“Cada pessoa faz evoluir, de maneira característica, para sua conveniência na antecipação de eventos, um sistema de construção que mantém relações hierárquicas entre construtos.” (O sistema de construção está organizado hierarquicamente, porém não é estático, está aberto à mudança). Assim, o sistema de construtos é diferenciado em níveis de construção onde se situam os diferentes subsistemas organizados da hierarquia, sendo que no nível mas elevado desta hierarquia se situam os construtos nucleares (mas resistentes a mudança e activados quando alguma experiência ameaça a estabilidade das construções sendo portanto os responsáveis pela manutenção e protecção dos sistema), e na base da hierarquia estão os construtos periféricos(os mais permeáveis, mais instáveis, e os que mais se relacionam com a flexibilidade das construções, sendo portanto também os responsáveis pela facilitação da mudança dos sistema).

Algumas pessoas tem sistemas de construtos mais flexíveis, mais complexos e mais abrangentes do que outras, o que tem repercussões quer na flexibilidade das antecipações das suas experiências, quer na possibilidade de reorganização do sistema geral, quer dos sub-sistemas mais específicos.

1.1.5.      Corolário da fragmentação:

“Uma pessoa pode empregar, sucessivamente, uma variedade de subsistemas de construção que são incompatíveis entre si.” (As pessoas podem testar novos construtos sem necessariamente descartar construtos anteriores, mesmo quando são incompatíveis). Alguns sistemas de construção pessoal integram na sua organização subsistemas de significado incompatíveis, contribuindo dessa forma para a existência de alguma inconsistência interna no sistema de construtos. A construção de acontecimentos novos exige a revisão das construções prévias, o que por vezes só é possível pela acomodação do sistema para permitir a incorporação de significados que não são consistentes com as construções anteriores dos acontecimentos, que dessa forma contribuem para a diferenciação intra-sistema.

O corolário da fragmentação está intimamente relacionado com o da organização, na medida em que propõe a divisão do sistema de construtos em subsistemas diferenciados, com diferentes âmbitos de conveniência, mas integrados em níveis de organização distintos no sistema geral.

1.1.6.      Corolário da sociabilidade:

“Na medida em que uma pessoa constrói os processos de construção de outra, ela pode ter um papel em um processo social envolvendo a outra pessoa.” (“A relação social construtiva implica construir a visão da outra pessoa). Para estabelecermos relações sociais com os outros não basta que utilizemos processos de construções similares, mas é necessário que consigamos participar nas sua construções, meta construindo os modos de construção dos outros.

1.1.7.      Corolário da dicotomia

“O sistema de construtos de uma pessoa se compõe de um número finito de construtos dicotómicos”, salienta a natureza discriminativa inerente á unidade básica de significado. Os construtos bipolares, sendo que o pólo emergente indica a forma em que pelo menos dois elementos (objectos de construção) são similares, e o pólo implícito define o contraste desses dos com um outro elemento. Em princípio, o sujeito escolhe o pólo do construto que dá significado a um determinado acontecimento de uma forma mais coerente com a sua estrutura de significados pessoais. Este processo de escolha pessoal entre os pólos do construto é esclarecido pelo corolário da escolha.

1.1.8.      Corolário da escolha

“ A pessoa escolhe para si própria, num construto dicotómico determinado, aquela alternativa com o qual antecipa mais probabilidades de elaborar o seu sistema”, ou seja, a escolha deve permitir antecipar futuros acontecimentos, quer alargando o âmbito em que o construto é operativo, quer aumentando a consistência interna do sistema de construtos. Se as antecipações que a pessoa faz são tentativas de manter a continuidade e a estabilidade da sua construção, então será provável que a sua escolha entre os pólos do construto recaia sobre aquele que é mais coerente com as suas construções anteriores.

1.1.9.      corolário da modulação

“ A variação no sistema de construção de uma pessoa está limitada pela permeabilidade dos construtos dentro de, cujo âmbito de conveniência estão variantes”. Um construto é tanto mais permeável quanto está capaz de admitir no seu âmbito de conveniência novos elementos (acontecimentos aos quais se procura dar significado) que não são ainda construídos dentro do seu sistema de referencia, sendo tanto mais permeável quanto mais se fixa a um conjunto determinado de elementos (Winter, 1992)

1.1.10.  corolário do âmbito

“ Um construto só é conveniente para antecipar um âmbito determinado de acontecimentos, ou seja um construto só pode ser operativo num conjunto particular e finito de acontecimentos. Ao conjunto destes acontecimentos, que se unem pela comunalidade da aplicabilidade do construto, chama-se âmbito de conveniência.

1.1.11.  corolário da comunalidade

“ A medida em que duas pessoas fazem construções similares da experiência, os seus processos são psicologicamente similares”. No entanto, apesar da unicidade dos conteúdos da construção pessoal (para além da partilha motivada pela pertença a uma mesma cultura ou grupo), diferentes pessoas utilizam processos similares de construção, o que pode ser responsável pela comunalidade nas suas construções.

Kelly usa sempre o termo “pessoa” para indicar que está se referindo ao indivíduo, não a qualquer parte dele ou qualquer manifestação de seu comportamento. Ao termo “construir”,

Kelly dá o significado de “colocar uma interpretação”. Construir réplicas de eventos significa colocar interpretações em eventos. A pessoa ergue uma estrutura dentro da qual o evento toma forma ou assume significado.

No nosso dia-a-dia já temos esquematizado o que vai acontecer em cada momento. Pode ser que haja algumas variações, mas o fato de levantarmos, tomar café, ir ao trabalho, almoçar….. , já está determinado e isso nos deixa tranquilo, pois sabemos ou prevemos na nossa mente que é isso que vai ocorrer. Kelly fala do “homem cientista” que busca prever e controlar eventos. O universo para Kelly é real e o homem está gradualmente compreendendo-o. Cada um procura representar o universo, ou parte dele, da sua maneira, construindo os seus construtos. Os construtos, não são fixos ou acabados, eles estão em constante mudança, a medida que novos construtos forem construídos ou velhos construtos modificados.

Segundo a teoria de Kelly, o professor já construiu os seus construtos dos conteúdos que vai trabalhar com os alunos. Os alunos, por sua vez, terão que construir os seus construtos, sobre estes conteúdos e certamente o farão de uma maneira diferente da feita pelo professor, e também cada aluno individualmente, construirá um construto diferente.

O que Kelly chama de construtos, poderíamos definir de como imaginamos, de como damos significado para tal fato ou fenómeno. Se ensinamos o conceito de força, certamente teremos na cabeça de cada aluno, uma ideia de força, que pode estar relacionada com o conceito cientificamente aceito na Física ou não. No final da aula, sobre força, cada aluno, terá construído, da sua maneira, um conceito de força, isto é, terá o seu construto de força. Este construto de força estará perto do aceito pela Física, se o professor conseguiu interagir com o aluno. Mas o construto de força adquirido na primeira aula, pode a cada momento se modificado.

2.      Ciclo da experiência Kellyana

Uma pessoa chega à aprendizagem, segundo Kelly, quando ao longo das várias tentativas de lidar com o evento, ela muda sua estrutura cognitiva para compreender melhor suas experiências, semelhante ao cientista que utiliza o método experimental para ajustar suas teorias. Essas construções pessoais são hipóteses de trabalho que se confronta com as experiências e estão sujeitas a constante revisão e recolocação. Ao contrastar as previsões antecipatórias com os acontecimentos, produz-se uma evolução progressiva de tais previsões. A própria experiência, segundo Kelly, é considerada com sendo conformada por construções sucessivas de acontecimentos. O processo da aprendizagem das pessoas se desenvolve segundo o ciclo da experiência Kellyana, composto de cinco etapas, representadas através da figura abaixo.

Antecipação: Nessa fase o convite é feito para participar de um determinado evento. O objectivo é fazer uma busca nas concepções, ideias relevantes para compreender esse evento. É o começo do processo de aprendizagem.

Investimento: Na segunda etapa do Ciclo da Experiência Kellyana a pessoa se prepara para participar activamente do evento, tendo contacto com livros, artigos, pesquisas na Internet, anotações do caderno etc., buscando informações sobre o assunto, passando a ter um conhecimento diferente daquele que anteriormente possuía.

Encontro com o evento: Na terceira etapa tem-se o encontro com o evento. É nessa etapa que apresenta-se um conjunto de conceitos teóricos envolvidos com o tema discutido, utilizando diversos recursos didácticos, analisando os diversos conflitos cognitivos que surgirem.

Confirmação ou refutação dos conhecimentos (Revisão): Através do conflito cognitivo gerado no momento do encontro, as pessoas são levadas a reflectir a respeito de suas concepções sobre o tema discutido, confirmando-as ou não. Percebe-se, portanto, que à medida que a pessoa vai interagindo com o assunto, no momento do encontro, dá-se também a sua validação, ou seja, ela é levada a rever ou não ideias anteriores, sempre através de comparação com as informações adquiridas antes e após os encontros.

Revisão construtiva: É o momento em que deve ocorrer uma revisão de seus conhecimentos. Ocorre a sedimentação dos conhecimentos adquiridos.

3.      Conclusão

Em suma, construtivismo abrange a ideia do “em processo”, ou seja, do estar se construindo, no campo educacional, é a ideia do conhecimento como algo não finito. O meio físico e social é uma questão que tem de ser levada em consideração. A interacção do indivíduo com esse meio e suas acções vão contribuir para esse processo de conhecimento. Há uma crítica e um questionamento ao sistema educacional que insiste em transmitir conhecimento pronto (acervo cultural), o construtivismo acredita que o conhecimento e todo o processo educacional é construído a partir de realidades sociais tanto do aluno quanto do professor, onde se estabelece uma relação de complementaridade juntamente com a bagagem cultural.

O professor construtivista deve saber muito a matéria que ensina. Mas, por uma razão diferente, antes, tratava-se de saber bem para transmitir ou avaliar certo. Agora, trata-se de saber bem para discutir com a criança, para localizar na história da ciência o ponto correspondente ao seu pensamento, para fazer perguntas inteligentes, para formular hipóteses, para sistematizar, quando necessário. O conhecimento científico sobre determinado assunto será sempre referência principal. Mas, não se trata de saber para impor, submeter ou induzir uma resposta na criança. Em uma visão não construtivista a resposta ou mensagem do professor é o que interessa, já na visão construtivista, é a pergunta ou situação problema que ele desencadeia nas crianças. Uma aula não construtivista pede o silêncio e a contemplação do ouvinte, uma aula construtivista pede o ruído e a manipulação, nem sempre jeitosa, daqueles que, tendo ou aceitando uma pergunta, não estão satisfeitos com o nível de suas respostas. Concluindo, o construtivismo afirma que as pessoas constroem conhecimento interagindo de forma activa com o meio ambiente.

4.      Bibliografia

    • Feixas, G.V. Approching the individual, approaching the system: A constructivist model for integrative psychotherapy. Journal of Family Psychology, 1990;
    • Fransella, F. & Bannister, D. A manual for repertory grid technique. London: Academic Press, 1977.
    • HALL, Calvin S. et al. Teorias da personalidade. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
    • Kelly, George A. (1963). A theory of personality – The psychology of personal constructs. New York, W.W. Norton & Company. 189 p.
    • MOREIRA Marco António,  Teorias de Aprendizagem.  Editora Pedagógica e Universitária Ltda (E.P.U.), São Paulo, Brasil, 1999.
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Author: O Exame

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